03 maio 2010

Um só Senhor, uma só fé, um só batismo – Lloyd-Jones

Primeiro devemos salientar o fato de que há somente "um Senhor". Esta era a essência mesma da pregação apostólica. Pedro a expôs inequívoca e ousadamente quando ele e João foram acusados perante as autoridades. "E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens pelo qual devamos ser salvos" (Atos 4:12). Não há outro! Não há nenhum segundo! Não se pode pôr ninguém ao lado dEle. Ele é absolutamente único. Ele não é apenas um homem, um mestre, um profeta. É o Filho de Deus! E o Senhor da glória que assumiu pessoalmente a natureza humana! "Um só Senhor - Jesus Cristo", e não há outro. Paulo o expressa assim, numa memorável declaração: "Porque, ainda que haj a também alguns que se chamem deuses, quer no céu quer na terra (como há muitos deuses e muitos senhores), todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por Ele" (1 Conntios 8:5-6). Ele expressa a mesma verdade outra vez em 1 Timóteo 2:5: "Há um só Deus, e um só Mediador" - unicamente um - "entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem".

Pois bem, na questão da unidade cristã isto é essencial. A unidade é a unidade daqueles que crêem que só há "um Senhor", e que Ele é tão perfeito, e a Sua obra é tão perfeita, que Ele não precisa de nenhuma assistência. Não existe nenhuma co-redentora, como os católicos romanos dizem que a virgem Maria é. Não há necessidade de nenhum assistente. O cristão não precisa da supererrogação dos santos, e não precisa orar a eles. Há somente um Mediador, e Ele é suficiente. Ele é completo em Si e por Si, e não se deve acrescentar-Lhe nada, nem a Ele, nem à Sua obra perfeita e consumada. A única unidade que o Novo Testamento conhece é a de pessoas que crêem nesta verdade. Esta é uma parte essencial da definição de unidade. Olhemos para este único Senhor, e a ninguém mais senão Ele. Ele é o primeiro e o último, o Alfa e o Omega, o princípio e o fim; Ele é tudo, e está em tudo. "Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor" (2 Coríntios 10:17). "Um só Senhor"!

Paulo nos lembra também que há "uma só fé". Que é que significa isso? Isso é mais difícil. Há os que dizem que é uma referência à nossa fé subjetiva, à nossa crença ou à qualidade da nossa fé. Isso está incluído, eu creio; mas me parece que está muito aquém da real ênfase do apóstolo neste ponto. Há certamente um elemento objetivo aqui. Será que significa que devemos subscrever alguma plena e completa confissão de fé ou um credo em especial? Não pode ser isso, porque sempre houve diferenças nessas confissões em certos pontos e com respeito a certos pormenores. É a isso que chegamos eventualmente, como ele o assinala no versículo 13. Todavia aqui ele diz que já existe esta "uma só fé".

Que é esta uma só fé? Parece-me que há somente uma resposta para a pergunta. É a grande e essencial mensagem do Novo Testamento concernente à fé justificadora. Essa é exposta perfeita¬mente pelo mesmo apóstolo com as palavras: "Não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: mas o justo viverá da fé" (VA: "pela fé"). Esse era o cerne da pregação apostólica, que é pela fé em que o homem é justificado, não pelas obras da lei, nem por nenhuma justiça dele próprio.

Temos uma clássica exposição disso em Romanos, capítulo 3. Depois de nos fazer lembrar que, como cristãos, estamos numa nova posição, com as palavras, "Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus" (versículo 21), Paulo prossegue e diz: "Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja ajusto e justificador daquele que tem fé em Jesus. Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé. Concluímos pois que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei" (versículo 24-28).

Essa é a grande mensagem central do evangelho. É por meio desta fé no Senhor Jesus Cristo e em Sua obra que somos justificados. Esse é o sentido desta "uma só fé". Ela constitui, por certo, toda a argumentação da Epístola aos Gálatas. Este é o evangelho, e não há outro, diz o apóstolo. E o evangelho é que Deus justifica o ímpio que crê em Jesus. Esta "uma só fé" é algo que é posto em oposição a todos os outros ensinos referentes ao caminho da salvação. É esta "uma só fé" contra a "regeneração batismal". É esta "uma só fé" contra a "graça transmissível". Ela se opõe a todas as idéias de que podemos justificar-nos por obras ou ações, nossas ou de outros. E o ensino segundo o qual só Cristo salva, e nos tornamos participantes desta salvação pela fé. Portanto, temos "um só Senhor, uma só fé".

Isto nos leva à frase: "um só batismo". Aqui de novo está uma coisa que devemos examinar cuidadosamente. Lembro-me de haver lido um comentário sobre este "um só batismo" num semanário cristão. O escritor contentou-se em despachá-lo com as palavras: "Claro, isto significa o batismo de água por imersão". Mas, certamente, em todo o contexto não se pode considerar isso como simples referência ao modo do batismo.

Vocês notam que isso está sob este título: "um só Senhor". Qual o significado disso? Ele é o único Senhor em que cremos pela fé, e por quem somos salvos pela fé. No entanto, além disso, temos que compreender que estamos incorporados nEle. Esse é o tema do apóstolo neste ponto. Ele estivera falando sobre "um só corpo", e no versículo 15 nos dirá que Cristo é a cabeça deste "um só corpo". Portanto, a interpretação óbvia deste "um só batismo" é que é uma referência ao nosso batismo em Cristo. Não meramente um batismo em Seu nome, porque isso de novo nos chama a atenção para o ato físico de batizar, ao passo que aqui o apóstolo está mais preocupado com a questão da união mística simbolizada por esse ato. Parece-me, pois, que esta é uma referência ao fato de sermos batizados no Senhor Jesus Cristo. Estou sugerindo, noutras palavras, que é apenas outra maneira de expressar o que o apóstolo diz em 1 Coríntios 12:13. Ali está ele falando sobre o "um só corpo", como aqui em Efésios, capítulo 4, e eis como o coloca: "Pois todos nós fomos batizados em um Espírito formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito".

A unidade que temos que "guardar" é unidade no "um só Senhor". A fé é o instrumento que nos direciona para Ele; porém, além disso, somos incorporados nEle, somos batizados nEle, estamos "em Cristo". E exatamente a mesma idéia que encontramos no capítulo dois, onde Paulo declara que tudo o que nos acontece, acontece graças à nossa união com Cristo: vivificados com Ele, ressuscitados com Ele, assentados com Ele nos lugares celestiais. E exatamente o mesmo ensino que se acha em Romanos 6:3-5: "Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte? De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo ressuscitou dos mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida. Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição". Este é o grande e exaltado ensino acerca da união do crente com o Senhor Jesus Cristo. Ou, como é expresso em Romanos, capítulo 5, nós, que estávamos "em Adão", agora estamos "em Cristo", e recebemos todos os benefícios da Sua Pessoa e da Sua obra. "Um só Senhor, uma só fé, um só batismo."

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