30 abril 2010

O Pecado Original - (Sermão) - D. Martyn Lloyd-Jones

"E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência, entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também. " - Efésios 2:1-3

Não poderemos entender a grandeza do poder da salvação de Deus enquanto não compreendermos que, por natureza, o homem está espiritualmente morto. Além disso, temos que captar o fato de que ele é governado por este mundo e pela mente deste mundo, que é governado pelo princípio do mal que está operando neste mundo e que, por sua vez, é governado pelo "príncipe das potestades do ar", aquele .grande chefe, o diabo, satanás, o deus deste mundo, que exerce controle sobre todos os poderes e forças que dirigem e governam os homens e determinam o tipo de vida que o homem leva neste mundo. Esse é o estado, a condição.

Como é vital que compreendamos isto ! Vital não somente do ponto de vista do entendimento do evangelho, mas certamente, num sentido muito prático, absolutamente essencial para o entendimento dos tempos nos quais vivemos, internacionalmente e também num sentido nacional. Nada é tão fátuo como a idéia de que a doutrina cristã é afastada da vida. Não existe nada mais prático, e o mundo está hoje em suas atuais condições de desordem porque os homens não querem reconhecer a veracidade daquilo que a Bíblia ensina sobre o homem. Observem a situação industrial, e mesmo a financeira. Qual é o problema? Bem, o que nos dizem é que a produção não é tão alta como deveria ser. Por que não é? Essa é a questão. Por que não estamos produzindo mais? E a resposta é, obviamente, que não estamos produzindo mais porque o homem se encontra num estado de pecado. Vocês notam que digo "o homem", não "os homens". Digo "o homem" para incluir todos os homens. Não estamos produzindo quanto deveríamos produzir porque os empregadores e os empregados estão ampliando cada vez mais a sua idéia quanto à extensão do fim de semana. Isto aplica-se a todos. Se um homem tem direito de alargar o seu fim de semana, o outro tem igual direito. E todos, porque se acham em pecado e egoísmo, como vou mostrar-lhes, estão agindo assim. Daí o nosso maior problema no momento. "Donde vêm as guerras e pelejas entre vós?", pergunta Tiago, e responde a sua própria pergunta. Elas vêm "dos vossos deleites que nos vossos membros guerreiam" (4:1). E a tragédia é que o mundo e os seus líderes e os seus estadistas, porque não reconhecem o ensino das Escrituras, acham que podem explicar isso noutros termos. Os diversos grupos se culpam uns aos outros, e os diversos países se culpam uns aos outros, não percebendo que todos eles estão juntos no pecado; e enquanto estiverem em pecado e forem egocêntricos e egoístas, só terão em conta a si mesmos, e o mundo continuará com seus problemas. Assim vocês vêem que esta doutrina bíblica do pecado é a coisa mais prática do mundo; e, não obstante, as pessoas a deixam de lado com desdém, e é pena, porém nisto se incluem até mesmos os cristãos. Quão distante do ensino bíblico está a comuníssima idéia de que o cristianismo é simplesmente uma coleção de numerosas máximas de moral, e que deve ir à igreja aos domingos apenas para receber algum encorajamento, para que lhe digam qual é o seu dever e que você é bom se o pratica, e nada mais. Isso nem é o começo do estudo do verdadeiro problema. Antes de podermos ter a mínima possibilidade de compreender a verdadeira natureza do problema, temos de entender o que é o homem no estado de pecado. Só então veremos claramente que nada, senão a renovação espiritual e a ação do Espírito Santo, têm possibilidade de lidar com a situação e de nos livrar em todos os aspectos. É por estas razões, pois, que estamos considerando este ensino.

Portanto, havendo examinado o homem em seu verdadeiro estado e condição, chegamos ao segundo ponto, que é a explicação da sua condição. Por que o homem se acha nessas condições? O que o levou a isso? Qual a explicação? O apóstolo responde com uma série de expressões e palavras que ele usa nestes três versículos. Vamos examiná-las. A primeira expressão importante é: "filhos da desobediência". "Em que noutro tempo", diz ele, "andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência." Que expressão significativa e importante! Que significa? Não significa apenas crianças ou filhos desobedientes. Esta é uma expressão bíblica deveras característica. Vocês encontrarão expressões semelhantes em muitos lugares. Vocês recordam como um dia o nosso Senhor voltou-Se para os judeus e lhes disse: "Vós tendes por pai o diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai" (João 8:44). Também se lembram de como, no Velho Testamento, muitas vezes vêem que certos ímpios são tratados como "filhos de Belial", ou por outra expressão semelhante. Devemos, pois, considerar a expressão como dizendo que a desobediência é a origem deste caráter distintivo. Somos filhos da desobediência no sentido de que é a desobediência que nos leva a sermos exatamente o que somos. Pois bem, é isso que o apóstolo está ressaltando aqui.

É sempre esse o ponto essencial da explicação bíblica sobre por que o homem é assim. O problema primário, essencial, é a desobediência. Foi isso que levou a todos os nossos problemas e desgraças. Noutras palavras, trata-se da nossa relação com Deus. E vocês notam que a ênfase é que o pecado não é meramente negativo, não é meramente ausência de qualidades, não é meramente ausência de alguma coisa; é positivo, é ativo, á deliberado. É des-obediência, é fuga da obediência, é questionar o direito que Deus tem de exercer o comando sobre nós, noutras palavras, é rebelião. E é isso que a Bíblia nos diz sobre o homem, do começo ao fim. O homem não é simplesmente uma pobre criatura que nunca teve chance e para com quem, portanto, vocês devem ser muito compassivos e muito tolerantes. Essa é a idéia moderna, vocês sabem. A doutrina bíblica do pecado saiu realmente do pensamento dos homens há uns sessenta ou setenta anos, e a psicologia entrou em seu lugar. É por isso disciplina e a punição desapareceram. A idéia agora é que, na verdade, todos nós somos, essencialmente, muito bons, e o problema é que nunca nos foi dada uma chance. O que necessitamos, dizem, é encorajamento. Não acreditamos na lei e nas sanções morais. Isso é considerado duro e cruel. O resultado disso tudo é a bancarrota da disciplina em todos os departamentos da vida- no lar, na escola, nas ruas, na industria, no comercio, em toda parte. Vocês vêem como esta doutrina é vital! A Bíblia ensina que os nossos problemas decorrem todos da desobediência inicial; que o homem é um rebelde contra Deus e deliberadamente se rebela contra Deus. E, naturalmente, isso tudo provém do seu amor próprio. É a auto-afirmação do homem, o posicionamento do homem contra Deus, o seu desejo de ser deus.

Isto se desenvolve ao longo de três linhas principais. Obviamente, a primeira é que o homem nega a sua condição de criatura. Ele se opõe a isso. O homem não gosta da idéia de que ele é uma criatura feita e criada por Deus. Ele acha que esta idéia de ser ele uma criatura é um insulto a ele, algo que o diminui e que diminui a sua grandeza e glória essencial.

Ele não gosta da idéia de que há alguém acima dele, mesmo Deus. Ele gosta de pensar que o homem é supremo, está acima de todas as coisas, e pode olhar de cima para todas as coisas. Esse é o coração e o cerne da objeção do homem a Deus e da sua oposição a Deus. O homem se ofende por natureza com a idéia de que existe algo ou alguém que ele não pode abarcar com a sua mente; e quando se lhe diz que ele é tão-somente uma criatura e que a sua atitude para com o Criador, o Senhor Deus Todo-peroso, deveria ser a de humilhar-se e cair sobre o seu rosto diante de Deus, ele se opõe a isso. Acha que é um insulto, e afirma que não é uma criatura, e que além dele não existe nada. Daí vocês têm o ateísmo do homem moderno, a sua objeção a Deus e a sua negação de Deus. Isso tudo surge do fato de que ele se opõe a esta idéia de que ele é uma criatura, de que ele é alguém que Deus fez, criou e modelou para Si.

Outra maneira pela qual isto se manifesta - e obviamente decorre da primeira - é que o homem sempre quer afirmar a sua auto-suficiência pessoal. Ele acredita que ele próprio é suficiente. É evidente que a Bíblia diz exatamente o oposto - que não somente o homem foi feito por Deus e para Deus, mas também que ele é dependente de Deus, e que só pode ser feliz quando está em harmonia com Deus e quando obedece a Deus. Toda a concepção bíblica do homem é que, assim, ele se acha num estado de completa dependência de Deus e que o seu bem-estar depende da sua compreensão disso e de praticá-lo. Todavia, é claro que isso contraria o que o homem sempre achou de si mesmo. Ele sempre achou que é auto-suficiente, que tem os poderes necessários e que só precisa pô-los em exercício para fazer um mundo perfeito e uma vida perfeita para si . Ele se acha competente para comandar os seus interesses da maneira certa, e que não necessita de ajuda nem de assistência.

Por isso não há nada que ofenda tanto o homem natural como o evangelho que lhe diz que ele é salvo unicamente pela graça de Deus que ele, como um mendigo, tem que aceitar como uma dádiva gratuita. Diz ele: não afundei tanto assim, não sou perfeito, talvez, mas não sou um mendigo, há algo que eu possa fazer e que sou capaz de fazer. É a doutrina da graça que o homem odeia mais que tudo. Essa é "a ofensa" ou "o escândalo da cruz"; e isso continua existindo porque o homem acredita em sua auto-suficiência, em sua capacidade, em seu poder inerente. Essa é uma expressão da sua desobediência. Ele não quer aceitar a graça, não quer acreditar nela, rebela-se contra ela e luta contra ela.

Ou talvez possamos explicar isso da seguinte maneira: é a afirmação que o homem faz da sua autonomia, da sua independência de Deus. O homem autônomo é o que se pensa do homem que todos os modos pode gerir todos os seus interesses e que não precisa de ajuda nem de assistência de parte alguma, nem mesmo de Deus ! O homem autônomo , o homem auto-suficiente, o homem auto-determinativo, o homem independente, o homem como deus, o homem como o senhor do universo, o homem no trono e sobre um pedestal!

Certamente todos hão de reconhecer que isso nada mais é que uma descrição do homem como ele é fora da fé cristã. Ele é completamente desobediente, e se orgulha disso com arrogância. Ele promove a sua personalidade e a sua auto-suficiência. É essencial forçar a questão a esse ponto. A desobediência, como eu disse, é ativa, ativa até igualar-se à inimizade. Se não compreendermos isso, é sinal que ainda não entendemos esta doutrina. Portanto, deixem-me interpretar o que o apóstolo diz aqui com o que ele diz na Epístola aos Romanos, capítulo oito, versículo sete: "A inclinação da carne", diz ele, "é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser". Que declaração! E que importante adendo! O homem desobedece por que está em inimizade contra Deus; odeia a Deus. Ah, mas, vocês dirão, conheço muitos que não são cristãos, porém que dizem que crêem em Deus. Não, não crêem! Crêem numa ficção, num produto da sua imaginação; eles não crêem em Deus. Se cressem em Deus, creriam em seu Cristo, como o nosso Senhor mesmo argumenta em João 8:30-45. Mas não crêem. Crêem simplesmente no que eles pensam e imaginam que Deus é, no deus que eles próprios fabricaram. Isso não é Deus! "A inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser."

Isso é importante, nesse sentido, que mostra que o homem, em conseqüência do pecado, em conseqüência de ser ele dominado pelo diabo e pelo princípio que este introduziu, e pela mente deste mundo, acha-se em tal estado e condição que ele não pode obedecer a Deus. É isso que o grande Martinho Lutero chamava "escravidão da vontade". Contudo, para o homem em pecado e para o homem moderno, que doutrina odiosa! "A escravidão da vontade!" A minha vontade é livre, diz o homem. O homem gosta de pensar que é absolutamente livre para escolher o que quiser, que ele pode escolher servir a Deus, se o desejar; que pode escolher ser cristão, se assim for o seu desejo. A afirmação da vontade do homem, do livre-arbítrio, é a ordem do dia. Mas a Bíblia fala em "filhos da desobediência"; e "Vós tendes por pai o diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai". Diz o nosso Senhor que você é incapaz. O homem natural não é sujeito "à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser" - ele é incapaz disso. Desde a queda de Adão, isso de livre-arbítrio, de vontade livre quanto a obedecer a Deus, não existe. Adão tinha livre-arbítrio; nunca mais ninguém o teve. A liberdade de vontade perdeu-se na Queda; nesta o homem passou a ser escravo do pecado e a estar sob o domínio do diabo. Sua vontade está presa. "Se ainda o nosso evangelho está encoberto", diz o apóstolo aos Coríntios (II Coríntios 4:3 e 4) "para os que se perdem está encoberto. Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos", para que não creiam no glorioso evangelho de Cristo. O diabo não os deixa crer. "O valente guarda, armado, a sua casa, em segurança. .." (Lucas 11:21 ). Essa é a condição do homem sob o domínio do diabo; ele não é livre. Não é livre para não pecar. "Filhos da desobediência"! "Nem, em verdade, o pode ser"! É incapaz disso. Tal a profundidade em que o homem afundou em pecado. E, contudo, é aí que entra o paradoxo, por assim dizer. Apesar disso, tudo o que o homem faz, ele o faz deliberadamente. Ele quer pecar, gosta de pecar, gloria-se em pecar. Não exerce negativamente a sua vontade para pecar; o que ele não pode fazer é querer o bem positivo, o bem espiritual. É incapaz disso, e aí está porque ele precisa "nascer de novo" e ter nova natureza. Mas ele pode querer o mal, e sente prazer em praticá-lo. O que ele não percebe é que ele se tornou incapaz de querer o bem e de querer alguma coisa que esteja direcionada para a salvação. Ele não é livre para isso. Filhos da desobediência, a prole da desobediência, a progênie da desobediência! Há no universo uma mente má, e nós somos seu fruto. Esse é o ensino bíblico. Acaso não é extraordinário que alguém que tem entendimento nestas questões possa discutir isso por um momento que seja? O mundo atual está simplesmente demonstrando e provando esta verdade. Os homens e as mulheres são escravos do diabo, estão sob a escravidão do diabo; estão sob o poder e domínio de satanás. (...)

"E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espirito que agora opera nos filhos da desobediência, entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também. " - Efésios 2:1-3

Basta para a primeira expressão, mas examinemos a segunda. Esta se acha no fim do versículo três: "e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também". Destaco as palavras "por natureza". Esta, obviamente, é uma expressão sumamente importante. É isso que explica por que somos filhos da desobediência e por que temos esta atitude particular com relação a Deus. O apóstolo a usa primariamente aqui, na explicação do seu ensino de que estamos sob a ira de Deus . Estamos sob a ira de Deus, diz ele, por natureza . Espero tratar disso mais adiante. Agora quero mostrar que a expressão significa algo mais que aquilo. Somos o que somos, em todos os aspectos, "por natureza". Se vocês preferirem outra tradução, poderiam usar em seu lugar a expressão "por nascimento", "e éramos por nascimento filhos da ira, como os outros também".

Noutras palavras, o ensino aqui é o mesmo ensino da Bíblia toda concernente ao homem em pecado, ensino segundo o qual nascemos neste mundo com uma natureza desobediente. Não nascemos com equilíbrio justo, com a possibilidade de ir por este ou aquele caminho. Nascemos com forte inclinação unilateral . Davi o expressa memoravelmente no Salmo cinqüenta e um, versículo cinco: "Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe". Que profunda peça de auto-análise e de psicologia! Se vocês querem psicologia, vão às Escrituras. Aí está um homem, Davi, examinando-se. Tinham-no feito lembrar-se do que ele fizera, o adultério e o homicídio que se lhe seguiu . Ele é despertado e se examina a si mesmo, e parece estar dizendo a si próprio: como pude fazer isso? Como pode alguém fazer tal coisa? Que é que torna um homem capaz disso? Que será? E, diz ele: há somente uma resposta, e é tão profunda como isto: em iniqüidade fui formado - "formado" em iniqüidade - e "em pecado me concebeu minha mãe".

Esta doutrina não é popular hoje. O homem em pecado jamais gostou dela. O que ele gosta de dizer, naturalmente, é que todos nós nascemos neutros. Vejam aquela criança, quão maravilhosa e perfeita! Bem, porque é que ela peca quando cresce? Ora, dizem eles, vocês vêem aqui qual é o problema; é o mundo pecaminoso ao qual ela vem: ela vê coisas más, vê maus hábitos, e aos poucos vai sendo influenciada por eles. Dizem eles que com a criança tudo está bem, mas com o ambiente não. Se tão-somente a criança fosse colocada num mundo perfeito, ela permaneceria perfeita; entretanto, vem a um mundo imperfeito e vê e pega hábitos, ouve falar e vê as coisas que as pessoas fazem, e gradativamente assimila essas coisas e as pratica. É tudo questão de ambiente, mau exemplo, má influência. Não, diz a Bíblia, não é não. Essa criança foi formada em iniqüidade, e foi concebida e nasceu em pecado. Quando vimos a este mundo, a nossa natureza já está corrompida. Herdamos uma natureza pecaminosa dos nossos antepassados e dos nossos pais; começamos com isso. As tendências e os desejos estão todos ali, e tudo o que o mundo faz é dar-nos um canal de escoamento. Há dentro de nós uma rebelião, um desejo de ter as coisas proibidas. Isso aparece logo no início. É uma das primeiras coisas que manifestamos, todos nós. Por quê? Bem, "por natureza".

Noutras palavras, o defeito central surge neste ponto da seguinte maneira: inclinamo-nos a pensar no pecado em termos de atos específicos da vontade; e daí nos inclinamos a estar cegos para o fato de que somos pecadores independentemente das nossas ações, de que o pecado está em nós e é parte integrante da nossa natureza. Devemos livrar-nos da idéia de que tudo está bem conosco enquanto não chega a tentação e caímos. Isso é verdade quanto a um pecado, uma ação pecaminosa. Neste caso, eu exerci a minha vontade e fiz o que não devia! Mas essa explicação não é completa. A real questão é esta: o que foi que me levou a esta ação? A resposta é que foi "algo" que está dentro de mim. Vejam as palavras do nosso Senhor, que falou disso uma vez por todas: "O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem. . . Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição..." e tudo o mais (Mateus 15:11,19). A dificuldade está no coração do homem. É esta natureza decaída, pecaminosa. É o que Paulo chama, no capítulo sete de Romanos "a lei do pecado que está nos meus membros"; "em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum". Ela é corrupta, é má, por natureza. "Somos por natureza filhos da ira, como os outros também."

Isso é de vital importância. Se a outra teoria estiver certa e o homem nasce mais ou menos neutro, e se os seus problemas forem causados pelo fato de que as coisas más ou um mau ambiente o levam a extraviar-se, então, tudo o que você terá que fazer é tratar do ambiente. E essa tem sido a filosofia dominante nos últimos sessenta a setenta anos. Tem-se considerado o problema como sendo um problema de educação, de moradia e de melhoria econômica, quase exclusivamente. Só tínhamos que dar ao homem as condições certas, e dar-lhe o ambiente certo e o conhecimento adequado, e ele estaria totalmente bem. No entanto, hoje em dia, seguramente, temos que começar a compreender que a verdade não é essa, que isso não funciona. Vocês podem dar ao homem as condições mais ideais, e ele irá mal. Foi no Paraíso que o homem caiu! E se o homem, em suas perfeitas condições originais, pôde cair em pecado, quanto mais o homem já decaído! Este é um princípio que por si mesmo se demonstra em todas as relações humanas, em toda parte. É uma lástima, mas o problema e a tragédia estão em um nível muito profundo. A Bíblia não está sozinha neste ensino. Shakespeare o expôs de maneira memorável: "O defeito caro Brutus, não está em nossas estrelas, mas em nós, que somos desprezíveis. "Por natureza"! Começamos com isso, com uma tendência para o mal, tendo a vontade em escravidão, sob o domínio de satanás, com cobiças e maus desejos, como veremos, já ali e esperando por uma oportunidade para demonstrar-se e manifestar-se.

Passamos a seguir à palavra muito importante "todos". "Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência. Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira" - e de novo ele o diz - "como os outros também." Ou, se vocês preferirem outra tradução - "como o restante da humanidade". "Todos", é universal. Ora, isso é uma coisa impressionante. Este ponto era muito apropriado para o argumento particular do apóstolo precisamente aqui. Seu tema é, vocês se lembram, como Deus em Cristo, na plenitude dos tempos, vai reunir as coisas em Cristo, "tanto as que estão nos céus como as que estão na terra" . E diz o apóstolo que Ele já começou a fazê-lo, No capítulo primeiro, versículo onze, ele afirma que alguns que são judeus creram no evangelho e estão no reino. Ele prossegue, dizendo que alguns que eram gentios também obtiveram herança. Aqui ele retoma o ponto - "E vos vivificou". Ele fez a mesma coisa com vocês, gentios. Mas seu grande desejo é que ninguém pense que ele está dizendo estas coisas somente acerca dos gentios. Não, "todos" nós andávamos nos desejos da nossa carne, "todos" nós éramos filhos da ira, como os outros também. O que ele diz aqui sobre o homem em pecado é verdade com relação ao judeu, como também com relação ao gentio.

Como era difícil para o judeu acreditar nisso! Durante séculos ele tinha acreditado que estava completamente separado: o judeu! Fora estavam os cães, os gentios, os estrangeiros. Estes estavam fora da "comunidade de Israel". O judeu era filho de Deus, estava a salvo porque era judeu. Ele era totalmente justo e melhor do que todos os outros que eram pecadores, os cães dos gentios, os quais estavam fora. Como lhe era difícil aceitar uma doutrina que afirma que ele era tão pecador como o gentio! Essa era a pedra de tropeço para o judeu ; ele não gostava disso. E esta classificação da humanidade ainda se vê em diferentes formas e moldes. No entanto, aqui o apóstolo diz, "não somente os gentios", mas "também os judeus". E vocês notam que até a si mesmo ele inclui. Tendo começado com vós , agora diz "nós". Essa é a verdade a respeito de Paulo, o apóstolo ! É inimaginável, não é? Mas essa fora a tragédia da sua vida antes da sua conversão. Como Saulo de Tarso, ele estava satisfeito com a sua vida; "segundo a justiça que há na lei, irrepreensível" (Filipenses 3:6). E (em Romanos, capítulo 7) ele nos conta como foi que veio a enxergar o seu erro. Foi quando ele entendeu a lei, que dizia: "Não cobiçarás". Então "reviveu o pecado, e eu morri". Quando se deu conta de que a lei dizia "você não pode desejar", "você não pode cobiçar", ele viu o real significado da lei e viu que ele era um terrível pecador. Escrevendo a Timóteo, ele diz: "Esta é uma palavra fiel, e digna de toda aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal" (I Timóteo 1 : l 5). Ele se considera o principal dos pecadores. "Todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne...".

Esta é a verdade com referência a "todos". Todavia, as pessoas ainda são muito lerdas para ver isso. Dizem elas: veja esta descrição do pecado que você faz naqueles três versículos. É claro, diz o homem, que eu posso ver muito bem que isso se aplica a certas pessoas. Eu ando pelas ruas e vejo aquele pobre bêbado, e aquela mulher decaída. Vejo pecado em seus trapos e em seus vícios. Você está totalmente certo no que diz com relação a tais pessoas e quando fala de uma natureza má e das luxúrias da carne, das luxúrias da mente, e assim por diante. Concordo plenamente com você. Mas nós não somos daquele tipo de gente. Porventura não existe gente boa, de boa moral, e decente, gente íntegra e religiosa? Você está falando isso dessa gente? A resposta do apóstolo Paulo é "todos", "como os outros também"; toda a humanidade, sem uma única exceção. Todos fomos formados em iniqüidade, concebidos em pecado. "Todos" nós temos esta natureza pecaminosa.

O erro fatal é pensar no pecado sempre em termos de atos e ações, e não em termos de natureza e de disposição. O erro está em pensar nele em termos de coisas particulares em vez de pensar nele, como devíamos, em termos de nossa relação com Deus. Vocês querem saber o que é o pecado? Eu lhes direi. Pecado é exatamente o oposto da atitude e da vida que se enquadram em , "Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento". Se você não está fazendo isso, você é um pecador. Não importa quão respeitável você seja; se você não está vivendo inteiramente para a glória de Deus, você é um pecador. E quanto mais você imaginar que é perfeito em si mesmo e independentemente de sua relação com Deus; maior será o seu pecado. É por isso que qualquer um que leia o Novo Testamento objetivamente poderá ver claramente que os fariseus dos tempos do nosso Senhor eram maiores pecadores (se se pode empregar tais termos) do que os publicanos e os pecadores declarados. Por quê? Porque eles se davam por satisfeitos consigo mesmos, porque eram auto-suficientes. O cúmulo do pecado é a pessoa não sentir necessidade da graça de Deus. Não existe pecado maior do que esse. Infimamente pior do que cometer algum pecado da carne é você achar que é independente de Deus, ou achar que Cristo jamais precisou morrer na cruz do Calvário. Não há maior pecado do que esse. A auto-suficiência final, a auto-satisfação final e a justiça própria, é o pecado dos pecados; é o cúmulo do pecado, porque é pecado espiritual. Assim, quando você chega a compreender isso, passa a compreender que o apóstolo não está exagerando quando diz "todos nós", "como os outros também".

Esse é o homem em pecado, e é verdade universal . Há somente uma explicação adequada disso. É a que nos é dada no começo do livro de Gênesis. É a doutrina bíblica da Queda e do pecado original . Não se pode compreender o mundo moderno à parte da doutrina do pecado original. Tudo aconteceu da seguinte maneira: um homem, Adão, o representante da humanidade, pecou, rebelou-se e caiu. E as conseqüências passaram a toda a sua progênie. Eu os desafio a explicarem a universalidade do pecado em quaisquer outros termos. Simplesmente não se pode fazer isso. Todas as outras teorias caem por terra. É por isso que temos que crer nos primeiros capítulos de Gênesis, se é que devemos crer no Novo Testamento. Sem isso não se pode ter uma verdadeira doutrina da salvação. As duas coisas vão juntas, como Paulo o prova no capitulo cinco da Epístola aos Romanos e de novo, e exatamente da mesma maneira, no capítulo quinze da Primeira Epístola aos Coríntios. Esse é o problema do homem; e é por isso que o homem é como é. Adão caiu, Adão pecou; e o resultado é que toda a semente de Adão nasce em corrupção, com uma natureza corrupta. É universal, acontece em toda parte. E' isso que "estabelece o parentesco do mundo inteiro"; é isso que torna absurdas todas as suas "cortinas", todas as suas barreiras de cor e todas as suas filosofias. Nisso o mundo inteiro é um só. Todos nós estamos em pecado, somos filhos da desobediência, herdeiros de uma natureza decaída que se expressa e se manifesta da maneira como iremos considerar - "nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos , estando pois, sob a ira de Deus e completamente desamparados .

Deixo o assunto nesta altura, porque estou pregando com a suposição de que me estou dirigindo a cristãos. Mas se eu estivesse pregando isto a um auditório misto, não pararia aí, não me atreveria a parar aí. Eu continuaria, dizendo: "Mas, quando estávamos nesta situação, em Sua infinita graça e amor e misericórdia, Deus nos vivificou". Nada menos que isso poderia fazê-lo. Que outra coisa mais poderia tratar do homem em tais condições? Nada menos que o soberano poder de Deus - o poder que, como Paulo dissera ao final do capítulo primeiro, fez o Senhor Jesus ressuscitar dentre os mortos e O elevou e O colocou "à sua direita nos céus, acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia". Nada menos que o poder de Deus pode resgatar e redimir e salvar o homem. Entretanto, Ele o fez em Cristo. E nós, que somos cristãos, fomos levantados daquela terrível condição em que estivéramos outrora, unicamente por causa da Sua maravilhosa graça.

D. M. Lloyd-Jones
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29 abril 2010

A Santificação não é Opcional – M. Lloyd-Jones


O perdoar-nos e o libertar-nos da condenação e do inferno nunca constituem um fim em si mesmos, e nunca devem ser considerados como tal. São apenas um meio para um fim ulterior. Não podemos deter-nos no perdão e na justificação.

Vamos examinar mais de perto o que o apóstolo ensina aqui sobre esta grande doutrina da santificação. O primeiro princípio é que nada é tão completamente antibíblico como separar justificação e santificação. Muitos o fazem. Dizem eles: "Você pode crer no Senhor Jesus Cristo como seu Salvador, e seus pecados serão perdoados, e você será justificado. E poderá parar aí". Dizem mais: "Naturalmente você não deve fazer isso, deve prosseguir e dar o segundo passo. Contudo existem muitos cristãos", dizem eles, "que param aí. Crêem em Cristo para a salvação e são justificados e perdoados; certamente são cristãos, porém não se ocupam da santificação". E então eles o exortam a "aceitar" a santificação como anteriormente "aceitaram" a justificação. Tal ensino é uma completa negação daquilo que o apóstolo diz aqui, e é comple¬tamente anti-bíblico. A morte de Cristo não visa meramente a dar-nos perdão, e a justificar-nos, e a tomar-nos legalmente justos aos olhos de Deus. "A si mesmo se entregou por ela, para (a fim de)...". É somente uma primeira ação de uma série; não é uma ação final, em nenhum sentido, e jamais deveríamos parar ali.

O apóstolo não ensina esta verdade somente aos efésios; ele a ensina a todas as igrejas. Vocês a encontrarão na Epístola aos Romanos, capítulo oito, versículo 3 e 4. Também em Tito 2:14: "Jesus Cristo, o qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniqüidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras". É por isso que Ele Se entregou por nós; não meramente para que pudéssemos ser perdoados, nem meramente para salvar-nos do inferno, mas para purificar e separar para Si este povo peculiar, zeloso de boas obras. O Senhor Jesus disse tudo isso em Sua oração sacerdotal (João 17:19): "E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade".

Parar na justificação não é somente errado quanto ao pensamento; é impossível por esta razão: que é uma obra realizada por Cristo; é Ele que faz isto em nós. Ele Se entregou pela Igreja. Por que? Para poder santificar e purificar a Igreja. Ele é que vai fazer isso. Todo o problema surge do fato de que alguns persistem em considerar a santificação como uma coisa que compete a nós realizar. Isso jamais é ensinado em parte alguma das Escrituras. O ensino das Escrituras é o seguinte: Cristo pôs Seu coração e Seu afeto na Igreja. Lá estava ela, sob condenação, em seu pecado, em seus trapos e em sua baixeza! Ele veio, houve a encarnação, Ele tomou sobre Si a "semelhança da carne do pecado" (Romanos 8:3). Ele tomou os pecados dela sobre Si, e os suportou em Seu próprio corpo no madeiro. Ele sofreu o castigo, Ele morreu, Ele fez a expiação e nos reconciliou com Deus. Assim a Igreja está livre da condenação. Mas isso não O satisfaz. Ele quer que ela seja gloriosa, Ele quer apresentá-la "a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante''. Portanto, Ele começa imediatamente a prepará-la para esse destino. Não pode parar no primeiro passo; Ele vai adiante, para santificá-la. Noutras palavras, Sua morte na cruz por nós e por nossos pecados foi simplesmente o primeiro passo neste grande processo. E Ele não se detém no primeiro passo. Ele tem um propósito completo para a Igreja, e o vai cumprindo passo a passo.

Gostaria de expressar isto vigorosamente. Em última análise, eu e você não temos escolha nesta questão da santificação. É algo que Cristo realiza. Ele morreu por você, e depois, tendo morrido por você, Ele vai lavá-lo, santificá-lo, purificá-lo - e Ele mesmo fará isso. Que ninguém se engane sobre isto. Se Ele morreu por você, levará adiante o processo de santificação em você, e finalmente o tornará perfeito. Há algo de alarmante em torno disto; no entanto, é ensino bíblico essencial. Se eu e você não nos submetermos voluntariamente a este ensino, Ele tem outro meio de purificar-nos; e o usará - "Porque o Senhor corrige a quem ama, e açoita a qualquer que recebe por filho" (Hebreus 12:6). Ele não permitirá que você fique onde estava, em sua imundície e vileza, dizendo: "Está tudo bem comigo, Cristo morreu por mim, eu estou perdoado, sou cristão". Ele não aceitará isso! Ele o amou, você Lhe pertence; e Ele o tornará puro. Se você não vier voluntariamente, e do modo certo, Ele o colocará naquela academia de ginástica sobre a qual lemos em Hebreus.

Ele aparará as arestas, eliminará a imundície e a vileza; Ele lavará você. Isso pode acontecer por meio de uma enfermidade que Ele fará sobrevir a você. Estes pregadores da "cura divina" que dizem que Deus nunca envia doença, estão simplesmente negando as Escrituras. Como um dos Seus métodos, Ele castiga. As circuns¬tâncias que o cercam podem ser más, você pode perder o emprego, ou uma pessoa que lhe é cara pode morrer. Cristão! Uma vez que você Lhe pertence, uma vez que Cristo morreu por você, Ele o tornará perfeito. Lute contra Ele quanto quiser em sua estultícia, Ele o lançará por terra, Ele o purificará, Ele o aperfeiçoará. Esse é o ensino; é uma coisa que Ele realiza. A santificação não é determinada por mim e por você - "E a si mesmo se entregou por ela, para (a fim de) a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra". O primeiro princípio que devemos entender é que a santificação é primária e essencialmente uma coisa que o Senhor Jesus Cristo faz para nós. Ele tem os Seus meios para fazê-lo. Naturalmente, a santificação inclui obediência da nossa parte. Mas você não precisa colocar aí a sua ênfase principal. A decisão pela santificação não é nossa; É dEle. Foi tomada na eternidade, antes da fundação do mundo. É Sua atividade, Sua operação; e, tendo morrido por você, Ele o fará. Resista a Ele, e o risco será seu. Ele levará cada um dos filhos, que foram chamados, para aquela glória final e sempiterna. Como Hebreus o expressa, se Ele não tratar você deste modo, significará que você é um "bastardo", e não um filho legítimo (Hebreus 12:5-11).

Esse é, pois, o grande princípio que constitui a base deste ensino apostólico. Como Cristo o leva a efeito? Veja-se a resposta na palavra "santificar"; "como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar". Esta palavra "santificar" é empregada de muitas maneiras na Bíblia, mas o seu sentido primário é, "ser separado" ou "separar"; "ser separado para Deus, para Sua posse peculiar e para Seu uso". Você verá em Êxodo 19, por exemplo, que o monte no qual Deus se encontrou com Moisés e lhe deu os Dez Mandamentos, foi "santificado" desse modo. É chamado "monte santo" porque foi separado. Não houve alteração na montanha, mas foi separada para os propósitos de Deus, para o uso de Deus, para ser possessão peculiar de Deus. Os vasos que eram usados no cerimonial do templo eram igualmente santificados ou separados. Não houve mudança material nos copos e nos pratos, todavia como deviam ser utilizados somente no templo e para o serviço de Deus, não podiam ser empregados no uso comum. Ser santificado significa ser separado para Deus e para o Seu uso e propósito especial, como Sua possessão peculiar. Portanto, somos um "povo para Sua possessão pessoal".

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28 abril 2010

O Ser Humano é um Fracasso - D. M. Lloyd-Jones


O mundo ainda acredita em educação e conhecimento. Acredita que todos os problemas são devidos à nossa falta de educação e o que precisamos é iluminação, conhecimento, a aplicação da razão e da lógica, e bom senso também - então, problema resolvido! Por conseguinte, precisamos agradecer a Deus pela ciência e pela educação que irão nos ajudar a ver e conhecer! Se ao menos as pessoas pudessem ser treinadas a pensar, dizem eles, e encarar os fatos, então não haveria problema algum. As dificuldades podem ser desvendadas pelo racionalismo. Claro, às vezes as pessoas estão dispostas a incluir neste conhecimento os ensinamentos de Jesus, como o chamam. Estão preparados para citar o Sermão do Monte. Dizem: "Como este sermão é óbvio e verdadeiro!" E assim introduzem o mesmo. Este ponto de vista, de que um bom ensinamento é tudo que é necessário para melhorar o mundo, é a visão mais comum de todas.

Mas, há ainda uma outra solução, que é similar à primeira. Alguns dizem que o problema é uma questão de doença. E defendido que quase todos os problemas que estão incomodando as pessoas de hoje nada mais são do que uma certa doença psicológica. Quando criminosos são denunciados numa corte e interrogados devido alguma má conduta, o comentário é feito: "O que ele fez não deve ser visto como crime, não deve ser chamado de pecado, é uma doença". Portanto, ao colocar pessoas na prisão, não se deve fazê-los trabalhar, mas chamar os psiquiatras, e falar amável e delicadamente com eles, porque são pessoas doentes. Se fizerem tudo isso, e explicarem as coisas aos presos e lhes der uma nova perspectiva, um novo ensinamento, e conseguir que se misturem com gente boa e agradável, gradualmente serão curados da doença, e o problema da sociedade e da moralidade será resolvido.

Ligado a isso está a nova perspectiva da natureza da punição. Uma das maiores mudanças que aconteceram neste século está na perspectiva da punição. As pessoas diziam que o principal objetivo da punição era punir- era punitiva. Mas hoje em dia esta visão é muito malquista. Estamos sendo informados de que o principal interesse da punição é reformar - é terapêutico. Por isso prisões tornaram-se reformatórios, onde curamos pessoas, e os ensinamos, e os introduzimos a uma nova vida.

Outras pessoas nos dizem que não devemos ficar tão nervosos com respeito aos problemas de hoje. O mundo está avançando, a humanidade está se aperfeiçoando e é meramente uma questão de tempo para que homens e mulheres consigam seus direitos. Verão sua tolice e deixarão de praticar tudo que os havia impedido no avanço ascendente da raça humana. A seu tempo alcançarão algum tipo de perfeição. "Seja paciente" é nos dito, "Roma não foi construída num dia e a raça humana não poderá ser endireitada em um dia."

Todos estes conceitos estão baseados sobre a crença de que homens e mulheres são essencialmente bons, ou, pelo menos, não são essencialmente ruins. É dito: "Oh, a Bíblia fala sobre pecado, e os velhos pregadores geralmente falavam sobre isto, mas nós já superamos esta fase; sabemos que tudo isto é tolice". Mas o fato é que estas abordagens já foram tentadas por muito tempo, e chegamos a um ponto em que devemos fazer a pergunta óbvia: a que chegou tudo isto? Quais os resultados?

Desde que Darwin publicou A Origem das Espécies, em 1859, a Bíblia tem sido ignorada cada vez mais. A maioria das pessoas hoje em dia tem mais ou menos descartado a Bíblia, e em muitos lugares a Igreja desapareceu quase que totalmente. As pessoas sentem que podem viver sem a Bíblia e sem Igreja. Mas a pergunta ainda surge: qual a explicação para a situação atual? Por que o mundo está como está? Qual o problema? Por que as pessoas rejeitam o cristianismo e acreditam nestas outras coisas? Há só uma resposta, e esta é que as pessoas nunca compreenderam a profundidade do problema. Elas nunca compreenderam a verdade do ensino bíblico sobre o pecado. A mensagem de Deus através da Bíblia para o mundo de hoje é que seu problema é tão intenso, tão profundo, que nada e ninguém além do próprio Deus todo-poderoso pode tratar dele. O Filho de Deus veio a este mundo porque o problema da humanidade em pecado era tão terrível que nada, a não ser uma intervenção drástica como esta, poderia providenciar uma solução. A lei havia sido dada, mas não tinha como salvar. Nada mais pode salvar. A lei, por ser "enferma pela carne", não pôde nos salvar. Assim, Deus mandou o Seu próprio Filho "em semelhança da carne do pecado, pelo pecado" (Romanos 8:3).

Isaías escreveu aos seus contemporâneos, quase 800 anos antes do nascimento de Cristo, porque eles também não compreenderam a profundidade do problema. Como já vimos, Isaías começa seu livro com uma análise do pecado e temos visto, em seu caráter essencial, qual a natureza do pecado e as coisas que as pessoas terminam fazendo. Agora chegamos a um novo parágrafo. O profeta Isaías se volta para as conseqüências do pecado. Naturalmente, homens e mulheres são tão ignorantes quanto as conseqüências do pecado quanto o são em relação ao seu caráter. Estão cegos para o que estão trazendo sobre si. Portanto, o profeta se dirige a eles com estas palavras: "Porque serieis ainda castigados?" diz ele. "Olhem para si mesmos. Aqui estão, tão cativos que seu corpo inteiro está coberto de chagas e feridas putrefeitas. Vocês são um monte de contusões supurantes e mesmo assim continuam pecando. Querem mais?"

É muito importante que enfrentemos com coragem as conseqüências do pecado, e quando o fizermos, adentraremos mais em nossa compreensão do seu caráter. Primeiramente precisamos entender o terrível poder do pecado. Sigamos Isaías enquanto nos mostra este aspecto, e comecemos com o fato de que pecado é algo que afeta a vida por inteiro. Isaías diz: "Toda a cabeça está enferma, e todo o coração, fraco. Desde a planta do pé até à cabeça não há nele coisa sã, senão feridas..." Isso pode ser interpretado de duas maneiras. Já o interpretei mostrando que o corpo todo está dessa maneira porque Deus está açoitando esta criatura pecadora; Ele o puniu até que ficasse moído de pancadas e cheio de contusões supurantes. Mas, isto também pode ser interpretado de outra forma, e acredito que ambas estão corretas. Estas palavras podem ser, e são, uma perfeita descrição do pecado em si.

De acordo com a Bíblia, pecado não é somente um defeito insignificante, uma fase negativa no nosso progresso evolutivo. Isso é o que os incrédulos acreditam. Eles negam que o pecado seja um fato concreto, ou que humanos são maus; para eles, o problema é somente que as pessoas não são tão boas como deveriam ser. Contudo, o ponto todo aqui em Isaías é que homens e mulheres são definitivamente maus, de maneira que estão sendo controlados e dominados por este poder terrível. Além disso, o profeta diz que isto é verdade com relação a todos - "Desde a planta do pé até à cabeça não há nele coisa sã". Ora, alguns comentaristas concordam que esta é uma maneira ilustrativa para dizer que, do mais humilde ao mais nobre na terra, todas as pessoas são culpadas; estão todos no mesmo barco; estão todos sofrendo da mesma coisa. E isso, naturalmente, é o que a Bíblia insiste em dizer sobre a natureza humana e o que a humanidade é. "Não há um justo, nem um sequer" (Romanos 3:10). "Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (Romanos 3:23).

Isto é importante, pois existem pessoas respeitáveis que dizem: "Pecado? Isso não se aplica à sociedade culta e a pessoas de cultura e sofisticadas, e sim a pessoas retrógradas e pessoas que vivem em favelas". Não, diz a Bíblia, o pecado é uma realidade em todas as classes. A Bíblia não está interessada em distinção social. Todas as pessoas são pecadoras, qualquer que seja seu nascimento, qualquer que seja sua linhagem, ou sua posição social. E isto é igualmente verdadeiro para todas as classes. Algumas pessoas dizem que aqueles que freqüentam igrejas têm um complexo de religiosidade. Se você possui esta mania religiosa será uma pessoa religiosa. Se você não a possui, não a será. Está bem, eles dizem. Não importa. Por que todas as pessoas deveriam ter a mesma inclinação? Assim sendo, a adoração a Deus e a vida de fé são repudiados em termos de classificações psicológicas.

Não, diz a Bíblia, os mandamentos de Deus se aplicam a todos, qualquer que seja sua classe. E, é claro, se fizéssemos uma análise em qualquer congregação presente num culto numa igreja, iríamos encontrar uma variedade de classes! Alguns são coléricos, outros fleumáticos, uns interessados em arte, outros em música, uns em matemática e assim por diante. Mas, com relação ao pecado, estas diferenças não têm a menor importância. Qualquer que seja o interesse, qualquer que seja o temperamento, jamais existiu homem ou mulher que não fosse pecador e um fracasso em algum aspecto moral.
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27 abril 2010

Conversão vem depois da Regeneração – M. Lloyd-Jones -


O que queremos dizer por regeneração? Ora, se lerem sobre o emprego desse termo na história da doutrina ou da Igreja, descobrirão uma grande confusão, visto ser ele um termo que fora usado vagamente, e mesmo os escritores individualmente não são consistentes em seu uso dele. As vezes tem sido usado num sentido muito restrito; às vezes, porém, num sentido muito amplo para incluir quase tudo o que sucede ao crente - justificação e santifícação, tanto quanto a regeneração e essa é uma prática, por exemplo, nos escritores católico-romanos.

Então, ao considerarmos o que regeneração significa, a coisa importantíssima, ao meu ver, é que devemos diferenciá-la da conversão. E no entanto quão amiúde são confundidas. Mas regeneração não é conversão, e pela simples razão de que conversão é algo que fazemos, enquanto que regeneração, como lhes mostrarei, é algo que nos é feito por Deus. Conversão significa passar de uma coisa para outra, na prática; todavia esse Deus foi criado em verdadeira justiça e santidade". Outra vez esse é um termo usado para descrever este espantoso acontecimento na história da alma: consiste numa nova criação.

E finalmente temos a palavra vivificar. Ora, o exemplo disso está em Efésios 2:5, onde lemos: "estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)". Talvez ficarão surpresos que eu não cite Efésios 2:1, que lê-se: "Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados". A expressão sobre vivificar, porém, não está ali no original, ela tem sido preenchida pelos tradutores à guisa de compreensão, e corretamente. Existe só mais um exemplo dessa palavra, e está em Colossenses 2:13: "e a vós, quando estáveis mortos nos vossos delitos e na incircuncisão da vossa carne, vos vivifícou juntamente com ele, perdoando-nos todos os delitos". Ela é o paralelo, naturalmente, à afirmação em Efésios 2:5, algo com que nos deparamos constantemente nessas duas Epístolas.

Esses, pois, são os termos reais que se usam nas Escrituras para indicar e comunicar o ensino concernente a essa marcante mudança. Enfim, o que queremos dizer por regeneração? Ora, se lerem sobre o emprego desse termo na história da doutrina ou da Igreja, descobrirão uma grande confusão, visto ser ele um termo que fora usado vagamente, e mesmo os escritores individualmente não são consistentes em seu uso dele. As vezes tem sido usado num sentido muito restrito; às vezes, porém, num sentido muito amplo para incluir quase tudo o que sucede ao crente - justificação e santifícação, tanto quanto a regeneração -e essa é uma prática, por exemplo, nos escritores católico-romanos.

Então, ao considerarmos o que regeneração significa, a coisa importantíssima, ao meu ver, é que devemos diferenciá-la da conversão. E no entanto quão amiúde são confundidas. Mas regeneração não é conversão, e pela simples razão de que conversão é algo que fazemos, enquanto que regeneração, como lhes mostrarei, é algo que nos é feito por Deus. Conversão significa passar de uma coisa para outra, na prática; todavia esse não é o significado de regeneração. Podemos colocá-la nesses termos: quando alguém é convertido ou sofre uma reviravolta, ele está dando prova do fato de que está regenerado. Conversão é algo que vem depois da regeneração. A mudança ocorre na vida e no viver externos dos homens e das mulheres, porque essa grande mudança primeiramente ocorreu em seu interior.

Vocês podem considerá-la assim: há toda a diferença entre plantar a semente e o resultado do plantio dessa semente. Ora, regeneração significa a semeadura da semente de vida, e obviamente isso deve ser diferenciado daquilo que resulta ou sucede dessa semeadura. Há uma diferença entre geração e nascimento. A geração ocorre muito tempo antes de se dar o nascimento. A geração é um só ato. Ela leva subseqüentemente, depois de certos processos terem prosseguimento, ao real processo do nascimento. E bom que mantenhamos as duas coisas separadas em nossas mentes, e lembremos que, quando estamos falando sobre a regeneração, estamos falando sobre a geração, e não sobre o parto ou nascimento efetivo.

Ora, o chamado eficaz entra no nascimento efetivo, e isso é o que fornece prova do fato de que os homens e as mulheres estão vivos. O chamado é eficaz: eles crêem. Sim, mas isso significa que o processo de geração, a implantação da semente de vida, já deve ter ocorrido. Acho proveitoso traçar esse tipo de distinção, porquanto nos auxiliará a diferenciar não só entre regeneração e conversão, mas também entre a regeneração e a adoção. Pois, além disso, as pessoas às vezes confundem adoção para filiação com regeneração, e todavia, clara e simplesmente, são duas coisas distintas, como veremos.

Assim, pois, definimos regeneração como sendo a implantação da nova vida na alma - isto é, regeneração em sua essência. Se vocês preferirem uma definição um pouco mais ampla, então considerem isto: é o ato de Deus por meio do qual um princípio de nova vida é implantada num homem ou numa mulher, resultando em que a disposição governante da alma é tornada santa. E em seguida o nascimento efetivo é aquilo que produz evidência do primeiro exercício dessa disposição.

Tendo colocado isso nesses termos para vocês, como uma definição precisa, prossigamos considerando a natureza essencial do que sucede quando somos regenerados. Isto é obviamente de grande importância, e por isso devemos começar com certas negativas para que sejamos plenamente esclarecidos quanto ao que a regeneração não significa e o que ela não representa.

A primeira coisa que devemos dizer, negativamente, é que a regeneração não significa que uma mudança ocorre na substância da natureza humana, e a palavra importante, aí, é substância. A doutrina da regeneração não ensina que a substância, a matéria prima, de que se constitui a natureza humana, ou o que quer que seja, é mudada.

Ou podemos colocá-lo assim: não devemos imaginar que se introduz alguma semente ou germe de vida - real, substancial ou física. A regeneração não é uma espécie de injeção ou infusão em nós de substância real e física. Ela não é algo físico; é uma mudança espiritual.

Em terceiro lugar, não devemos imaginar que ela signifique que há uma completa mudança em toda a natureza humana. A pessoa regenerada não se transforma em algo inteiramente diferente. A regeneração não tem esse sentido (e veremos na seqüência dessas doutrinas por que todas essas negativas são importantes). Da mesma forma, não significa que o homem se torna divino, ou que se transforma em Deus.

"Ah!", diz alguém, "Acaso não somos participantes da natureza divina?"

Sim, mas não no sentido em que de repente nos tornamos divinos. Não nos tornamos à semelhança do Senhor Jesus Cristo, com duas naturezas - humana e divina. E mister que tomemos o cuidado de excluir isso.

Ainda outra negativa é que a regeneração não significa adição a, ou subtração de, as faculdades ou a essência da alma. Ora, há pessoas que têm chegado a essa conclusão - e cada uma destas negativas é introduzida para salvaguardar contra coisas que têm sido imaginadas e ditas de vez em quando sobre a regeneração. As cinco faculdades da alma são: mente, memória, afeto, vontade e consciência, e algumas pessoas parecem concluir que o que sucede na regeneração é que uma faculdade adicional é introduzida ou que, de uma maneira ou outra, uma ou mais faculdades são tiradas ou são transformadas. Mas essa não é a doutrina bíblica da regeneração.

E minha última negativa é que a regeneração não significa apenas reforma moral. Na verdade, algumas pessoas têm chegado a essa conclusão. Acreditam que tudo o que sucede na regeneração é que as inclinações das pessoas são mudadas, e que, em decorrência disso, elas se reformam e passam a viver uma vida melhor. Contudo, isso nada é senão reforma moral, e não regeneração.
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26 abril 2010

Orgulho Intelectual - D. M. Lloyd-Jones -



O orgulho intelectual é uma condição da mente e da alma que a Bíblia descreve em termos de "inchar-se". Paulo afirma, em 1 Coríntios 8:1 — "A ciência incha" (AV —"O conhecimento incha"). Todas as espécies de conhecimento tendem a inchar-nos. Todavia o conhecimento bíblico em particular tem essa tendência. O homem fica orgulhoso do seu conhecimento e do seu entendimento; torna-se uma autoridade; e, por sua vez, naturalmente, vem a desprezar os outros. Esse foi um dos grandes proble¬mas ocorridos em Corinto. O irmão mais forte desprezava o mais fraco — esse sujeito ignorante que não "sabe" nada! As pessoas fortes, esclarecidas, dotadas de facilidade para progresso no conhecimento, desprezava os outros irmãos, pelos quais Cristo morreu.

O apóstolo não poupa estes irmãos "fortes"; trata-os com severidade. "O conhecimento incha, mas o amor (a caridade) edifica."

A terrível tentação para orgulhar-nos do nosso conhecimento da bíblia, do nosso conhecimento da doutrina, sempre está presente. E, enquanto estivermos nessas condições, é claro que não estaremos em contato com as Pessoas divinas. Ninguém pode ficar orgulhoso na presença de Deus, ninguém que realmente conheça o Senhor Jesus Cristo pode inchar-se. Como diz o apóstolo, "Ainda não conhecemos nada como devíamos conhecer" ("conhecemos em parte"). No máximo, "vemos por espelho em enigma", neste mundo (1 Coríntios 13:12).

Nada temos de que possamos orgulhar-nos. Como Tiago o expressa, "Meus irmãos, muitos de vós não sejam mestres" (Tiago 3:1). Tenham o cuidado, diz ele, de não erigir-se em padrão para o seu próprio julgamento. Se se colocarem como autoridades, bem, esperem ser julgados como autoridades. Se alguém disser: "Eu sei tudo sobre isso", será examinado com base nisso.

Todo e qualquer orgulho e satisfação própria na presença de Deus é totalmente inimaginável. Ainda não sabemos nada como deveríamos saber, não passamos de principiantes, remadores a remar na beira deste poderoso e imenso oceano da verdade. Acautelemo-nos do orgulho intelectual; este foi a causa do pecado original, e tem sido, desde então, o pecado que assedia o povo de Deus. "Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor" (1 Coríntios 1:31) — não no conhecimento da doutrina, não no conhecimento sobre o Senhor. Glorie-se no Senhor mesmo, e em nada mais.


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25 abril 2010

Falsificações - D. M. Lloyd-Jones


Temos vivido dias enganosos. Muitos têm sido enganados por falsificações, por fatos que aparentemente são reais, a tal ponto que, por eles, vão às ultimas conseqüências. Mas não são verdadeiros, são falsos, e esta é uma característica do diabo, de satanás, o pai da mentira, o pai da falsificação. E neste contexto as seitas são exatamente o que aparenta ser verdadeiro e por isso têm enganado a tantos. Como diagnosticar estas seitas?

Primeiro, seria bom dizer que o surgimento de seitas no meio dos evangélicos é demonstração de que a igreja não está bem. Muitos estão com problemas graves e têm procurado a igreja, mas não têm visto solução para si mesmos; creio que aqui deva ser colocado o tradicionalismo evangélico, a ortodoxia (que, diga-se de passagem, é necessária) morta, a superficialidade cristã, a falta de conversão verdadeira, o comodismo, tudo isso tem feito as pessoas buscarem outro aconchego.

No entanto é fato real que a grande maioria das pessoas está em busca de solução para os seus problemas, uma vida melhor, vida de paz, sem problemas, sem doença, mas são avessas às exortações, às recomendações de santificação; estão buscando pão como nos dias de Jesus. "Vós me procurais não porque vistes sinais, mas porque comeste dos pães e vos fartastes" (Jo.6:26). Aqui é que entra a seita, pois ela oferece ao povo exatamente aquilo que ele necessita (quer). E se você repreende alguém, recebe esta advertência: "Veja o bem que estou recebendo! Se me faz bem, deve ser de Deus!" Ou seja, se traz sucesso, solução, fez-me mudar de vida e traz felicidade, deve ser de Deus.

É exatamente aí que satanás arma sua cilada e já tem dominado muitas vidas. Lembrem-se que muitas organizações que ridicularizam o cristianismo podem ajudar as pessoas e fazê-las felizes. Lembro aqui os psiquiatras e psicólogos ateus. Eles podem trazer resultados muito bons, sem nada de orientação cristã. O próprio espiritismo tem trazido solução para muitas vidas; a yoga, o pensamento positivo e outros. Se você acha que tudo o que traz o bem pessoal é de Deus, saiba que já está caído diante do diabo.

Como saber então se é de Deus? Como diagnosticar o problema?

Seria bom inicialmente afirmar que o que importa ao homem não é o que ele sente, mas o seu relacionamento com Deus. Qualquer orientação que me faça ficar satisfeito, quando a minha relação com Deus está ruim, isto é do diabo. Era esta a situação dos fariseus.
Mas há outros testes práticos que gostaria de colocar.

O modo como vem a "bênção". Eles ensinam que se você obedecer a uma fórmula, pré-estabelecida, a bênção virá, a felicidade, a paz, a cura. E sempre é uma fórmula alheia às Santas Escrituras. Geralmente a idéia de uma visão que alguém teve, e daí é elaborado o sistema. Elas podem até citar as Escrituras, mas ao acaso, texto fora do contexto, e isso é transformado em pretexto. Compare isso com as grandes confissões de fé e credos do cristianismo. São todos sinopses da Palavra de Deus. Ali é enfatizada a grandeza e extensão da Bíblia. Como é diferente das seitas que apresentam apenas uma fórmula, uma fórmula mágica. ( Na igreja: ir a igreja, ou ler a Bíblia, ou orar).

Testemunho Pessoal. Outro aspecto que é característico de uma seita é o testemunho pessoal. O que os sectários destas seitas falam é sobre sua vida, o que era e o que são agora. Que eram assim até entrarem para esta "igreja", o seu problema está resolvido. Não ensinam as doutrinas fundamentais do cristianismo. Enfatizam apenas uma fórmula. Vejam que eles, ao enfatizarem seus testemunhos, começam com eles e terminam com eles, e não com Jesus como Senhor, apesar de citá-lO.

Apenas o prático. Eles enfatizam apenas o que é prático. Negligenciam a doutrina. Dizem: "Vocês precisam é de algo prático". Na verdade, porém, o que estão querendo dizer é que não é importante a doutrina. Mas não era assim que Paulo fazia na epístola aos Efésios; ele escreve os três primeiros capítulos nos quais a doutrina não é prática, é pura doutrina. E só depois do capítulo quatro ;e que a torna prática. Ou seja, primeiro o fundamento doutrinário, depois a prática. A ordem inversa é de grande perigo. É o que acontece com essas seitas.Quero aqui realçar o perigo dentro das nossas igrejas. Hoje há uma tendência em se desvalorizar a doutrina. Teologia, doutrina, tudo soa muito intelectual, sofisticado (creio até que em algumas circunstâncias é verdade) e por isso é negligenciado. Há risco de seitas no nosso meio.

Você é que pode fazer. Apesar de falar no Espírito Santo, não se acha que Ele é que vai realizar em nós o que Deus quer. Eles sempre afirmam que é você que pode fazer. Esquecem que é Deus que opera em nós tanto o querer como o efetuar. Daí surgir a jactância, o orgulho, a satisfação própria. Há muita arrogância, pois são eles que conseguem realizar. A mudança foi devido a uma atitude tomada, uma conseqüência do seu esforço próprio. "Eu era assim, mas agora consegui isto..." Não estão entregues à vontade de Deus, mas seus interesses é que prevalecem. Este perigo também está em nossas igrejas e os que agem assim estão esquecidos do que disse Paulo: "operai a vossa salvação com temor e tremor"(Fl.2:12) - Mas eles dizem "não há nada o que temer". Deus nos livre deste pecado da arrogância. É Deus que opera em nós a mudança. O mérito é dEle!

Fórmula Simples. Uma outra característica é que "a fórmula é muito simples". Eles chegam a dizer que é um desperdício estudar tanto as epístolas, quando eles têm uma fórmula tão simples. As seitas têm todas as características dos remédios dos charlatães e toda a sua propaganda. "Eis aí o remédio que cura todos os males". O pior é que não afirmam apenas que podem resolver todos os problemas, mas que podem resolver com facilidade. Mas não é isto que ensina o apóstolo Paulo quando diz: "em tudo somos atribulados, mas não angustiados, perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos..." Podemos ser vitoriosos, é verdade, mas não é fácil. Por isso ele disse também: "Nossa luta não é contra a carne e o sangue..." Temos de lutar contra poderes terríveis. Essa idéia de "fácil" é falsa à luz do Novo Testamento.

Cura e Benção imediatamente. Nesta linha de pensamento, outra característica semelhante das seitas é que elas oferecem a CURA, a BÊNÇÃO, "imediatamente". Já notou isso? É o método do "atalho", e por isso conseguem tantos adeptos. Mas o que nos ensina o Novo Testamento é que estamos num mundo difícil, pecaminoso, dominado pelo diabo e seus anjos. Por isso precisamos de toda a armadura de Deus. Precisamos ser fortalecidos "com poder pelo Seu Espírito no homem interior" (Ef.3:16). O homem moderno afirma: "Eu pensava que o cristianismo resolveria todos os meus problemas e endireitaria tudo imediatamente, mas agora me dizem que devo lutar, vigiar, orar, jejuar, suar... Não quero nada disso! Quero algo que solucione rápido o meu problema". As seitas respondem: "Certo, naturalmente". Observem que as seitas não ensinam crescimento na graça e conhecimento de Cristo; não falam em "operai a vossa salvação com tremor e temor"(2Pe.3:18).Qualquer coisa que ofereça "atalhos" espirituais não é cristianismo da Bíblia. Mas as seitas perguntam: "O que você está precisando? Qual o seu problema?" E responde: "Venha. Nós podemos ajudá-lo". E oferecem o remédio barato, fácil e rápido. Saúde, cura física, a bênção que soluciona todos os seus problemas.Mas o método do Evangelho é muito diferente. A primeira coisa do Evangelho é o CONHECIMENTO DE DEUS. Está é a grande mensagem da Bíblia. Por que Cristo veio ao mundo? "Para conduzir-nos a Deus", responde o apóstolo Pedro (1Pe.3:18). O Evangelho não começa com as minhas dores e penas, minhas necessidades de orientação ou minha aflição. Começa por conhecer a Deus. Este é o objetivo do Cristianismo. "A vida eterna é esta" - Qual? Que eu não me aflija mais, ou que fique livre daquilo que me deprime? Não! - "que te conheçam a ti só, por único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo a quem enviaste"(Jo.17:3). Se eu estiver correto com este pensamento, as outras coisas estarão resolvidas. O objetivo do Cristianismo é levar-nos ao conhecimento de Deus e do Senhor Jesus Cristo.

Sem ênfase na santidade. As seitas não mencionam isto e também não falam de santidade. Podem até proibir muitas coisas nocivas, e dessa forma fabricar fariseus satisfeitos consigo mesmos. Mas a santidade não é algo negativo, e sim positivo - "Sede santos, pois Eu Sou Santo" diz o Senhor. Não é apenas vitória sobre pecados particulares, mas é de fato ser santo. Eles não enfatizam isso.

Ênfase no agora. Outra coisa que as seitas não falam é sobre a "esperança da glória". O Novo Testamento nos fala da glória vindoura. Mas as seitas se propõem a ajudar as pessoas enquanto elas estiverem neste mundo, sem enfocar o futuro. "VOCÊ", você é que está no centro, eles estão enfatizando a experiência e não falam da glória do céu, nem do "NOVO CÉU E NOVA TERRA, ONDE HABITA A JUSTIÇA".(2Pe.3:13).

Enfim, as seitas ficam apenas num estreito círculo no qual o homem está girando, girando e repetindo constantemente a mesma coisa. A "bênção" oferecida pelas seitas é bem diferente do que o Evangelho oferece.

Abomino as seitas. Elas não passam no teste que é a Pessoa de Cristo. Todo movimento ou ensino que não faça do Senhor Jesus Cristo e Sua morte na cruz e Sua gloriosa ressurreição, uma necessidade absolutamente central, não é cristã e sim manifestação das "astutas ciladas do diabo". Ou seja, qualquer ensino ou movimento que diga que você pode Ter esta ou aquela benção sem primeiro crer no Senhor Jesus Cristo como o Filho de Deus, como Salvador de sua alma e Senhor de sua vida, e que sem Ele você não é nada, é uma negação das Escrituras, do cristianismo. Se o ensino ou movimento inclui maometano, budista, judeu e lhe oferece a bênção sem que eles reconheçam e confessem que Cristo, e somente Cristo, é o Filho de Deus e que Ele, somente Ele, pode salvar o pecador, porque ele morreu pelos nossos pecados, NÃO É CRISTÃO! Essa bênção fora do evangelho é negação do cristianismo e devemos rejeitá-la. Não há acesso a Deus, não há conhecimento de Deus como Salvador e Libertador, exceto por meio de Cristo. As seitas são um insulto a Deus, a Jesus Cristo, não têm direito de existir. Se você acha que Jesus não é suficiente, e que deve ir após as seitas em busca de ajuda e "bênção"(cura, prosperidade...), você O está negando; você O está insultando. São as astutas ciladas do diabo.

A fé que sustentou, fortaleceu e abençoou os santos no transcurso dos séculos, e que tem resistido a todos os testes que se podem conceber, é suficiente. Você não tem necessidade de seguir alguma idéia nova, moderna, que só passou a existir no século passado, ou neste. VOLTE PARA A VELHA HISTÓRIA, sempre nova e verdadeira. Volte para a fonte e origem de todas as bênçãos; volte para o Deus eterno e Seu Filho, nosso glorioso Salvador, o Senhor Jesus Cristo. E o Espírito entrará em seu ser, e todas as suas necessidades serão supridas.
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24 abril 2010

Por Que a Pregação Decaiu? - Lloyd-Jones


Um Panorama Histórico


Qual a causa disso? Bem, penso que posso analisá-la de maneira bem precisa no que se refere à Grã-Bretanha, e creio que isso vale em parte aqui. Na Grã-Bretanha estou certo de que um dos fatores mais importantes foi que tivemos um primeiro ministro cujo nome era Stanley Baldwin. Assumiu as suas funções em 1924. Ele seguiu certos homens do tipo de Lloyd George, que fora primeiro ministro durante a Primeira Guerra Mundial e que tivera em seu gabinete pessoas como Winston Churchill e o lorde Birkenhead. Todos esses homens eram bons para discursar, eram grandes oradores; e Stanley Baldwin não era. Era um político muito inteligente e percebeu que a única coisa que um homem como ele poderia fazer era dizer algo mais ou menos assim: pois bem, eu não sou um grande homem, não sou um grande orador, sou apenas um inglês comum, franco e simples. Passou a sugerir que a oratória é perigosa e que, se um homem é um bom orador, não se pode confiar nele. O único homem em quem se pode confiar é o homem tranqüilo, simples, que não pode proferir uma oração grandiosa mas que pode oferecer uma prosa amigável, e nesse você pode confiar.

Sem nenhuma dúvida, essa idéia penetrou toda a esfera da pregação. Tenho observado o desenvolvimento de certa desconfiança da pregação. Vocês tiveram neste país um homem que, penso eu, fez grande dano - S. D. Gordon. Alguns dos mais velhos de vocês se lembrarão dos livros dele e, para mim, os títulos dos seus livros põem tudo às claras: "Singelas Conversas sobre isto e aquilo" - sobre a oração, sobre o poder ("Quiet Talks on Prayer, Quiet Talks on Power"). Sempre deve ser uma conversa singela, como uma prosa amigável, nada dessa "grande oratória de púlpito", perigosa e não espiritual. Conversas singelas, apenas uma breve conversação! Esses fatores, vocês vêem, atuaram juntos.

Depois veio a terrível invenção do rádio e da televisão - eles têm sido uma grande maldição. E têm sido uma maldição por muitas e muitas razões. Uma delas, naturalmente, é que em geral você tem o tempo limitado por essas coisas, e isso é sempre destrutivo para a verdadeira pregação, como lhes mostrarei mais adiante. Em acréscimo a isso, há o elemento impessoal. Muito freqüentemente o pregador fica sozinho numa sala, o que é péssimo: não tem contato com os seus ouvintes. E há várias técnicas a respeito das quais eles têm muito que dizer; tem havido vários cursos sobre "técnicas de televisão" aos quais não faltam freqüentadores. Não posso imaginar algo tão patético como pregadores se deixarem instruir por esses pequenos peritos em televisão sobre como se conduzirem, até quanto àquele sorriso ridículo, e tudo mais. Tais cursos destroem todo o conceito e idéia da pregação. Estou aqui para lhes falar a verdade, e devo criticar coisas que tenho observado entre vocês aqui, como noutros lugares. Não entendo esse costume de um pregador ir para o púlpito domingo de manhã, olhar para as pessoas presentes e dizer-lhes: "bom dia". Isso é o mundo; o pregador não deve fazê-lo. Vieram ouvir a Palavra de Deus, e o pregador vem de Deus. Não há necessidade desse tipo de coisa, e já sinto que isso interfere no elemento essencial da pregação.

Outro fator ligado à decadência da pregação tem a ver com o lugar da leitura. Conforme as pessoas se tornam mais instruídas e buscam cada vez mais a leitura, toda a noção de pregação tende a ser depreciada. O homem inteligente dá-se conta de que não precisa agüentar uma arenga lançada sobre ele por um homem num púlpito; ele pode fazer a sua leitura em casa, pode ler os mesmos livros que o pregador lê. Daí, por que deverá ouvir o pregador? E mais intelectual ele próprio sentar-se e ler um livro. Penso que isso tem feito realmente grande dano. A idéia é que os nossos antepassados não liam, não tinham os livros, e com freqüência muitos deles não sabiam ler, e assim dependiam desse homem que parecia ser uma autoridade. Mas a geração moderna rebelou-se contra tudo isso, e a leitura tomou o lugar da pregação. Bem, cada um desses pontos, é claro, poderia ser tomado, e poderíamos mostrar a tremenda diferença que há entre a leitura, mesmo de bons livros, e a pregação. Não há comparação entre as duas. A pregação é o método e processo ordenado por Deus, e a leitura jamais poderá ser um substituto da pregação. Há algo peculiar acerca da pregação que a leitura jamais poderá alcançar.

Outro fator que tem feito grande dano a toda a questão da pregação em nosso país, e creio que também no de vocês, tem sido um mal e falso tipo de pregação popular. Tivemos um excesso disso, especialmente em Gales, minha terra natal. Houve homens que transformaram a pregação em diversão, homens que estavam mais interessados na maneira como diziam as coisas do que nas coisas que diziam, e homens que eram peritos naquilo que, em minha bem ponderada opinião, é uma abominação, a saber, o uso exagerado de ilustrações e histórias. Todo o objetivo do sermão era conseguir uma ilustração eficiente! Sabiam que conseguiriam produzir efeito sobre as pessoas. A noção do sermão e da pregação veio a ser uma noção de entretenimento. E com isso você tinha uma falsa pregação popular, com a qual toda pessoa verdadeiramente espiritual, na verdade toda pessoa inteligente, ficava pouco menos que desgostosa.

Houve também um termo que se usava e que eu abomino, o termo "pulpiteiro" ("pulpiteer"). Havia esses grandes pulpíteiros, os Henry Ward Beecher e gente desse tipo, que causaram infinito prejuízo à pregação. Eles eram grandes mestres de assembléias, homens bombásticos que dominavam nos períodos médio e final da era vitoriana. Entendo que eles fizeram grande dano a todo o conceito e noção da pregação verdadeira.

Depois, apenas para acrescentar outro fator a esta lista, há o movimento sacramentalista, que teve sua influência sobre diferentes segmentos da Igreja, particularmente na Igreja Anglicana, em diferentes países ao redor do mundo. A mesma influência tem permeado as igrejas livres, a idéia de que o sacramento é o encargo central da igreja, mais importante que qualquer outra coisa. Pois bem, a história disso na Igreja Anglicana na Inglaterra é realmente muito fascinante. O movimento anglicano-católico iniciou-se na década de 1830, introduzindo vestes e novas idéias quanto ao sacramento - o qual se aproximava cada vez mais de Roma. E à medida que isso tudo se desenvolvia, a pregação declinava correspondentemente. Assim o sermão veio a ser mera trivialidade. O importante era a administração dos sacramentos.

O derradeiro elemento que colocarei nesta categoria de coisas que prejudicaram muito a pregação é a noção geral do trabalho pessoal que eu creio que vocês denominam "aconselhamento". Isso também tem militado contra a pregação. A idéia é que o realmente necessário é uma conversação pessoal em que as pessoas podem apresentar as suas perguntas e as suas dificuldades e as podem solucionar juntas. Talvez a pregação ainda seja considerada uma espécie de função, mas apenas como uma introdução geral para conseguir que as pessoas venham falar com você; o vital será realizado quando você tiver privadamente uma conversação. Este é um dos resultados do interesse pela psicologia e pela introdução do elemento psicológico na obra pastoral e, na verdade, em toda a atividade da vida da Igreja. E na medida em que esta ênfase ao aconselhamento tem aumentado, correspondentemente a ênfase à pregação tem decaído. Eu poderia ilustrar de novo, no caso de Gales, onde, naturalmente, sempre acreditamos na pregação mais do que jamais se acreditou nela na Inglaterra. Acreditava-se na pregação mais na Escócia e em Gales do que jamais se acreditou nela na Inglaterra, porém a pregação tem se esvaído em ambos os países, e em grande parte por causa dessa ênfase à obra pessoal. Em Gales deveu-se a mudança quase inteiramente a um professor que foi diretor de uma das faculdades da Igreja Presbiteriana Galesa. Ele próprio não podia pregar, pobre sujeito; era supostamente um grande psicólogo, no entanto nunca se deu conta do seu próprio complexo, claro para alguns de nós. Ele resolveu o seu problema pessoal menosprezando a pregação e acentuando o valor do aconselhamento e da obra pessoal. Era um homem tão hábil e afável que influenciou duas ou três gerações de jovens pregadores que não acreditavam mais na pregação como tal. E, naturalmente, eles podiam contrastar o que estavam fazendo com a falsa pregação popular, e o resultado foi que toda a noção de pregação veio a ser depreciada. Pois bem, aí estão alguns dos fatores que têm militado contra o verdadeiro entendimento da pregação e do lugar da pregação na vida da Igreja.

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