30 novembro 2010

Tome posse de sua plena salvação! - M. Lloyd-Jones


Começamos a dar-nos conta disto — que agora somos filhos de Deus. Temos agora esta nova dignidade, este novo nível, este novo status, esta gloriosa posição em que agora nos achamos. Volte àquela oração sacerdotal feita pelo Sumo Sacerdote por excelência (João 17) e note como diz nosso Senhor que devemos glorificá-lo neste mundo exatamente como Ele glorificou o Pai. Você tinha percebido isso? A vida cristã é assim; essa é a razão pela qual se hã de levar vida cristã — dar-me conta de que pertenço a Deus e que me compete glorificá-lo. . . Que posição esplêndida! E o Espírito está em mim e me capacita a fazê-lo. Ele transforma a minha atitude e eu perco o espírito de escravidão e o de covardia. . .

Compreendo que o Espírito Santo habita em mim. . . O Espírito Santo em nós faz-nos lembrar nosso destino. «Se filhos, então herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo» ... O cristão tem absoluta certeza do seu destino. . . Não é questão de. . . lutar para fazer alguma coisa; é questão de ficar preparado para o lugar para onde você vai indo. A maneira de ficar livre do espírito de escravidão e de covardia é saber que, se você é filho de Deus, está destinado ao céu e à glória, e que de todas as coisas que você vê dentro e fora de si mesmo, nenhuma pode impedir o cumprimento desse plano. . «Esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé». Fé em que?

Fé em meu destino final. . . Nada é tão eficaz para promover a santidade como a percepção de que somos herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, de que nosso destino é seguro e certo, de que nada o pode impedir. . . É assim que se vive a vida cristã! Não a transforme numa lei, mas dê-se conta de que você recebeu o Espírito Santo. Depois, viva à altura desse tema, na prática. . . Você pertence a Cristo, você é irmão dEle. . . Não se preocupe com os seus sentimentos. A verdade relativa a você é gloriosa. Se você está em Cristo, eleve-se ao nível correspondente, «acima do pecado, do medo e da preocupação». Tome posse de sua plena salvação, e triunfe e prevaleça.

Spiritual Depression, p. 173-5.
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23 novembro 2010

A disciplina da vida cristã – M. Lloyd-Jones


É-nos da máxima importância apercebermo-nos de que existe o que se chama «disciplina da vida cristã». Não basta dizer. . . que, o que quer que nos suceda, temos apenas de «olhar para o Senhor», que tudo nos irá bem. . . Esse ensino é antibíblico. Se fosse só isso que tivéssemos que fazer, muitas porções das Escrituras seriam completamente desnecessárias . . .não haveria motivo para existirem as Epístolas; mas elas foram escritas. . . por homens inspirados pelo Espírito Santo . . .o que nos dizem. . . é que há uma disciplina essencial na vida cristã.

Um dos aspectos mais lamentáveis da vida de certos tipos de cristãos hoje em dia é que parecem ter perdido de vista esse aspecto da fé. Infelizmente, isso acontece sobretudo com relação aos que se empenham por maior fidelidade ao Evangelho. . . Em primeiro lugar e sobretudo, houve uma reação contra o ensino católico-romano. No sistema católico-romano dá-se muita importância a certa espécie de disciplina. Foram produzidos muitos livros e manuais sobre o assunto. De fato, alguns dos maiores mestres desse tipo de ensino são católicos-romanos como, por exemplo, Bernardo de Claraval, ou o bem conhecido Fénélon, cujas famosas Cartas para Homens e Cartas para Mulheres foram muito populares em certa época.

Pois bem, os protestantes reagiram contra isso, e em certa medida fizeram bem. . . Mas deduzir do mau uso da disciplina que não há nenhuma necessidade dela na vida cristã, é algo totalmente errado.

Na verdade, os períodos realmente grandiosos do protestantismo sempre se caracterizaram pelo reconhecimento da necessidade de tal disciplina. . . Por que homens como os dois irmãos Wesley e Whitefield foram chamados metodistas? Porque tinham vida metódica. Eram metodistas porque tinham método em suas reuniões. . . O próprio termo metodista. . . salienta o fato de que criam na disciplina, em como as pessoas devem disciplinar sua vida e como se deve tratar e lidar com cada personalidade, nas circunstâncias e situações com que nos defrontamos no mundo em que vivemos.

         Faith on Trial, p. 23,4.
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18 novembro 2010

Faça a sua parte — e deixe-a nas mãos de Deus – Lloyd-Jones


Consideremos o caso dos que temem o futuro. . . condição muito comum, e é, de fato, coisa das mais extraordinárias observar como é que o inimigo tantas vezes produz o mesmo tipo fundamental de condição nas mesmas pessoas, mediante estes métodos que parecem ser diametralmente opostos. Quando você endireita a atitude delas, com relação ao passado, imediatamente começam a falar do futuro, resultando que estão sempre deprimidas no presente. Você conseguiu satisfazê-las quanto ao perdão dos pecados; sim, até daquele pecado específico, que achavam tão excepcional . . . E então dizem: «Ah, sim, mas. . .», e se põem a falar de temores concernentes ao futuro e ao que está lá adiante. . . Ora, está bem que pensemos no futuro. . .

Mas as Escrituras constantemente nos exortam a não ficarmos preocupados com o futuro. «Não vos inquieteis com o dia de amanhã», quer dizer: «Não sejais culpados de ansiosa preocupação com o amanhã». Não significa que não devemos pensar nele de modo algum. Caso contrário, o agricultor não usaria o arado e a grade, e nem semearia. Ele o faz olhando para o futuro, mas não passa o tempo todo perguntando e se afligindo quanto aos resultados finais do seu trabalho. Não; ele pensa nisso razoavelmente, e depois o deixa. . . embora esteja muito certo pensar no futuro, é muito errado deixar-se dominar por ele. . . Pensar é certo, mas ser manobrado pelo futuro é total-mente errado.

Pois bem, esse é um postulado fundamental, e o mundo descobriu isso. Ensina-nos que não devemos atravessar pontes antes de chegar nelas. Introduza isso nos seus ensinos cristãos, pois o mundo tem razão nesse ponto. . . muitas afirmativas escriturísticas que tratam do mesmo assunto tornaram-se proverbiais — «não vos inquieteis com o dia de amanhã», «basta ao dia o seu próprio mal» . . . Isso re-vela bom senso. . . Basta-me «um passo de cada vez» . . .não permita que seu futuro hipoteque seu presente, assim como você não deve permitir que seu passado hipoteque seu presente.

Spiritual Depression, p. 94,98,9-
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16 novembro 2010

Não Fazemos o Evangelho Relevante – Ele é - David Martyn Lloyd-Jones

O evangelho de Jesus Cristo confronta e desafia o mundo moderno com a declaração de que somente o evangelho tem a resposta para todas as perguntas do homem, bem como a solução para todos os seus problemas. Em um mundo que procura saída para suas tragédias e tubulações, o evangelho anuncia que a solução já se acha disponível. Em um mundo que olha ansiosamente para o futuro e que fala em planos relativos a ele, o evangelho proclama que esta busca por outra saída não apenas está errada quanto à sua direção, como também é inteiramente desnecessária. O evangelho denuncia o hábito fatal de colocarmos as nossas esperanças em algo que virá a acontecer e afirma que tudo quanto é necessário para os homens, individual e coletivamente, já foi posto à disposição da humanidade há quase dois mil anos. Pois, a mensagem central do evangelho para os homens é que tudo quanto é mister para a salvação deles se encontra na pessoa de Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus. O evangelho proclama que Cristo é a revelação plena e final de Deus. Em Cristo, em sua vida e em seus ensinamentos vemos aquilo que o homem deve ser e qual o tipo de vida que ele deve viver. Na morte de Cristo sobre a cruz, podemos ver o pecado do mundo finalmente desmascarado e condenado. Através de sua morte, vemos o único meio pelo qual o homem pode reconciliar-se com Deus. E exclusivamente dEle que podemos receber vida nova, obtendo um novo começo. Somente quando recebemos dEle o poder, então podemos viver aquela vida que Deus tencionou que vivêssemos.

De fato, o evangelho vai mais adiante e assegura-nos que Cristo está assentado à mão direita de Deus, em poder reinante, e que continuará a reinar até que os seus inimigos sejam postos por estrado dos seus pés. O evangelho proclama que chegará o tempo quando, ao nome de Jesus, se dobrará "todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra" (Fp. 2.10). Portanto, o evangelho de Jesus Cristo confronta o homem, exorta-o a arrepender-se dos seus pecados e a olhar para aquela Pessoa sem par, que esteve nesta terra há quase dois mil anos passados, a única em quem se pode achar a salvação.


No entanto, todos temos consciência de que a expiação operada por Cristo, conforme apresentada nas Escrituras, é altamente desagradável para a mente moderna. Não existe razão tão freqüentemente apresentada, como explicação para a rejeição do evangelho, quanto o fato de que ele é antiqüíssimo. Em geral, as pessoas deste século consideram que os crentes se acham nessa posição ou por serem lamentavelmente ignorantes ou, então, por se terem tornado retrógrados e se recusarem a enfrentar os fatos. Para o homem moderno, nada é tão ridículo como a sugestão de que tudo quanto ele precisa hoje em dia, é de algo que vem sendo continuamente oferecido à humanidade por quase dois mil anos. Na realidade, o homem moderno recebe como insulto a afirmação de que, apesar de todo o seu conhecimento, progresso e sofisticação, espiritualmente falando ele permanece precisamente na mesma condição na qual têm estado todos os homens, através da longa história da humanidade. Ele supõe que qualquer coisa que seja muito antiga não pode ser adequada para satisfazer as necessidades da situação moderna. Por esse motivo, a vasta maioria das pessoas nem ao menos pára, a fim de considerar o evangelho. Argumentam elas que algo tão antigo não pode ser relevante para os nossos dias.
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12 novembro 2010

Deixe que a Bíblia fale! – M. Lloyd-Jones


. . .(Alguns) . . .nunca chegam a aceitar plenamente o ensino e a autoridade das Escrituras. . . Não se aproximam da Bíblia para submeter-se completa e absolutamente a ela. Se ao menos chegássemos às Escrituras como crianças, e as aceitássemos em seu significado transparente, e permitíssemos que elas nos falassem, esta espécie de dificuldade não surgiria nunca. Essas pessoas não fazem isso. O que fazem é misturar as suas idéias pessoais com a verdade espiritual.

É claro que alegam que tiram suas idéias basicamente das Escrituras, mas, e esta é a palavra fatal, imediatamente passam a modificá-la. Aceitam certas idéias bíblicas, mas há outras idéias e filosofias que desejam trazer consigo, de sua vida antiga. Misturam idéias naturais com idéias espirituais. Afirmam que gostam do Sermão da Montanha e de 1 Coríntios 13. Dizem que crêem em Cristo como Salvador, mas ainda argumentam que não devemos ir longe demais nessas questões, e que elas acreditam na moderação. Daí, começam a modificar as Escrituras. Negam-se a aceitá-las como autoridade em todos os pontos na pregação e no viver, na doutrina e na maneira de encarar o mundo.

«As circunstâncias mudaram», dizem tais pessoas, «e a vida não é mais o que costumava ser. Agora, estamos vivendo no século XX». Assim, pois, modificam as Escrituras aqui e ali, para adaptá-las às suas idéias pessoais, ao invés de levarem firmemente a doutrina escriturística à sua conclusão lógica, de começo a fim, e de confessarem quão irrelevante é a conversa sobre que estamos no século XX. Esta é a Palavra de Deus, não limitada pelo tempo, e, visto que é a Palavra de Deus, devemos submeter-nos a ela, confiando em Deus, crendo que Ele empregará os Seus próprios métodos e à Sua própria maneira.

Spiritual Depression, p. 44,5
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08 novembro 2010

A Malignidade da Humanidade - M. Lloyd-Jones


Olhe para ele e veja o que o mundo é. Tome aqueles que são considerados os grandes homens do mundo, nos quais nos gloriamos e dos quais nos orgulhamos. Coloquem-nos no lugar de Jesus e nada há. Ele os condena a todos. Que criaturas débeis são quando comparadas a ele.

Mas vamos, dê mais uma olhada. Se você quer saber como este mundo é, olhe para o que fizeram a ele. Lá estava o Filho de Deus. Ele deixou o trono dos céus, veio e se humilhou, entregou-se para curar e instruir as pessoas. Ele jamais causou dano a alguém. Ele veio fazer o bem. Mas qual foi a resposta do mundo? Ele foi odiado, perseguido e rejeitado. O mundo preferiu um assassino a ele, crucificando-o e executando-o. E lá na cruz, Jesus expôs o mundo como ele é. Mas os homens inteligentes deste século estão rindo, zombando e ironizando a cruz, estão caçoando do sangue de Cristo, em uma tentativa de ridicularizá-lo. Eles estão apenas repetindo o que os seus arquétipos fizeram no século I. Eis como o mundo sempre o tratou.

Porém, há um outro aspecto. Toda a sua ênfase constituiu-se no exato oposto da ênfase do mundo. Como temos visto, o mundo enfatiza a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a soberba da vida. O que Jesus enfatizou? Ele enfatizou algo a respeito do que o mundo jamais falou, ou seja, a alma.

Jesus disse: "Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?" (Mc 8.36). E se você fosse o ser humano mais belo que o mundo já conheceu, se estivesse sempre trajado com as roupas mais deslumbrantes, se morasse no mais suntuoso palácio ou possuísse a maior coleção de automóveis e tudo o mais? Se você tivesse o mundo todo, mas perdesse a sua própria alma? Eis o que Jesus afirma sobre o mundo, principalmente lá na cruz: "Que daria um homem em troca de sua alma?" (Marcos 8.37). Por que ele morreu? Jesus morreu pelas almas dos homens, não pelo nosso bem-estar material, não pela reforma deste mundo, mas para salvar nossas almas. "Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o perdido" (Lucas 19.10). É a alma que está perdida. Aquilo sobre o que o mundo nada conhece, mas está em você e em todos nós, esta coisa imortal em nós que vai além da morte e do fim. Não, ele expôs a mentira deste mundo, mostrando como ele realmente é. Jesus contou uma parábola sobre o rico e Lázaro. O rico vivia em seu palácio, vestido garbosamente, em trajes maravilhosos, comendo na companhia de seus felizes amigos até fartar-se, enquanto o pobre mendigo permanecia sentado diante do portão, com os cães a lamber suas feridas. Bem, o Senhor disse, com efeito, não julgue superficialmente, este não é o fim da história. Jesus nos descreve a imagem de Lázaro ao lado de Abraão, enquanto o rico padecia em tormento no inferno. E possível ver a diferença entre a mente e a perspectiva do mundo, e a mente e a perspectiva do Pai e do Filho de Deus. Ele expõe o mundo como ele é.
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05 novembro 2010

Nos Lugares Celestiais - Martyn Lloyd-Jones


“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” – Efésios 1:3

Já temos visto que muitos erram em todo o seu pensamento sobre o cristianismo porque partem de um ponto de vista errado. Eles têm uma concepção materialista do cristianismo, e não se dão conta de que a fé cristã é positivamente extra-mundo. A consequência é que eles ficam constantemente em dificuldade. Há muitos que dizem que não podem ser cristãos por causa do estado do mundo e das coisas que estão acontecendo nele. O argumento deles é que, se Deus é amor, que promete abençoar todo aquele que O buscar, os cristãos não deveriam sofrer – não deveriam adoecer ou sofrer adversidade. Temos aí um claro exemplo daqueles mal-entendidos resultantes da não percepção de que as bênçãos advindas ao cristão são "espirituais" e estão "nos lugares celestiais”.

Mas devemos examinar este assunto de maneira mais minuciosa. Nem nesta Epístola, nem em qualquer outro lugar, o apóstolo sobe a maiores alturas do que neste versículo particular, onde ele nos eleva aos “mais altos céus” e nos mostra o ponto de vista cristão em sua maior glória e majestade. De muitas maneiras a expressão "nos lugares celestiais” é a chave desta Epístola, em particular, onde ela ocorre não menos que cinco vezes. Acha-se neste versículo 3, e também no versículo 20 deste capítulo primeiro, onde Paulo escreve sobre o fato de Cristo estar assentado à mão direita de Deus nos lugares celestiais. Alguns comentaristas não gostam da palavra “lugares”, pois acham que ela tende a localizar o conceito. Contudo, não basta dizer “celestiais”. Vê-se a mesma expressão também no capítulo 2, versículo 6, e no versículo 10 do capítulo 3. A última referência é no versículo 12 do capítulo 6, na declaração: “Não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais”. É óbvio que o apóstolo não repetiria esta frase, se ela não tivesse um significado real e profundo; e ela é, repito, uma das apresentações mais gloriosas da verdade cristã. Se tão-somente pudéssemos enxergar como nós estamos em Cristo nos lugares celestiais, isso faria uma revolução em nossas vidas, e mudaria toda a nossa maneira de ver.

Ao empregar a frase “nos lugares celestiais”, o apóstolo emprega uma expressão descritiva que, era muito popular no século primeiro. Era uma concepção judaica típica. Ele faz uso da mesma idéia na Segunda Epístola aos Coríntios, capítulo 12, onde nos dá um pouco de biografia, e no versículo 2 diz: conheço um homem em Cristo que há catorze anos (se no corpo não sei, se fora do corpo não sei: Deus o sabe) foi arrebatado até o terceiro céu”. A expressão “terceiro céu” é exatamente idêntica a “lugares celestiais”, nos termos em que é empregada nesta Epístola aos Efésios. Segundo essa concepção, o primeiro céu é o que se pode descrever como o céu atmosférico, onde ficam as nuvens. O segundo céu pode ser descrito como o céu estelar; é aquela parte das regiões superiores onde estão colocados o sol, a lua e as estrelas. Essa parte está muito mais distante de nós do que as nuvens ou o céu atmosférico, e os números astronômicos utilizados pelos cientistas lembram-nos que os céus estelares estão a uma tremenda distância de nós.

Contudo, há um “terceiro céu”, que não se trata do céu atmosférico nem do céu estelar. Trata-se da esfera em que Deus , de maneira muito especial, manifesta a Sua presença e a Sua glória. É também o lugar em que o Senhor Jesus Cristo, em Seu corpo ressurreto, habita. Além disso, é o lugar em que os “principados e potestades” aos quais o apóstolo se refere no capítulo 3 têm a sua habitação; na verdade, é o lugar a respeito do qual lemos no capítulo 5 de Apocalipse, onde a glória de Deus se manifesta. Lemos ali a respeito de Cristo em Seu corpo glorificado, "um Cordeiro, como havendo sido morto”, cios brilhantes espíritos angélicos, dos animais c dos "vinte e quatro anciãos”. Todos esses dignitários angélicos e poderes têm sua habitação ali. E, ainda mais maravilhoso e glorioso, ali também estão “os espíritos dos justos aperfeiçoados”. Os que morreram no Senhor, “em Cristo”, estão ali com – Cristo neste momento. Estão nos “lugares celestiais”, no “terceiro céu”, naquele domínio em que Deus manifesta algo da sua glória eterna.

Agora podemos passar a considerar o sentido da expressão “nos lugares celestiais” à luz destas cinco referências a ela nesta Epístola aos Efésios. O Senhor Jesus Cristo, ressurreto dentre os mortos, já está naquele domínio em Seu corpo glorificado, como disso nos faz lembrar o versículo 20. O que, portanto, o apóstolo está dizendo é que o que temos, e tudo o que gozamos corno cristãos, vem de Cristo, que está naquela esfera, e por meio dEle. Mais que isso, pelo novo nascimento, por nossa regeneração, somos ligados ao Senhor Jesus Cristo, e nos tornemos partícipes de Sua vida e de todas as bênçãos que dEle vêm. O ensino do apóstolo é que, nos estamos "em Cristo”. Somas parte de Cristo; estamos tão ligados a Ele por esta união orgânica mista que tudo quanto lhe, seja próprio, nos é próprio espiritualmente. Assim como Ele está nos lugares celestiais, assim também nós estamos nos lugares celestiais. As bênçãos que gozamos como cristãos são bênçãos "nos lugares celestiais” porque elas toquem de Cristo que lá está.

É minha opinião que aqui vemos mais claramente do que em qualquer outro lugar a profunda mudança a que alguém sc sujeita por tornar-se cristão. Não se trata de uma mudança superficial, não é apenas que vestimos uma roupa de respeitabilidade ou decência ou moralidade, não é um melhoramento na superfície ou uma mudança temporal. É tão profunda como o fato de que somos tomados de um reino e colocados em outro. Assim corno Deus tirou o Senhor Jesus Cristo do túmulo, e dentre os mortos, e O colocou à Sua mão direita nos lugares celestiais, assim o apóstolo ensina que a mudança pela qual passamos em nosso novo nascimento e regeneração leva a esta correspondente mudança em nós. É a fim de que os cristãos efésios possam entender isso mais completamente que Paulo ora por eles: para que "tendo iluminados os olhos do vosso entendimento... saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos; e qual a sobreexcelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força de seu poder, que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dos mortos, e pondo-o h sua direita nos céus” (VA: “nos lugares celestiais”). Essa, e nada menos que essa, é a verdade ‘acerca do cristão. Dada a limitação das nossas capacidades, em conseqüência da nossa condição finita e do nosso pecado, achamos muito difícil apossar-nos destas coisas; mas tudo o que esta Epístola aos Efésios procura fazer é concitar-nos a lutar para que tornemos posse delas, a orar pedindo iluminação para podermos entender.

A dificuldade surge pelo fato de que o cristão é, necessariamente, num certo sentido, dois homens em um ao mesmo tempo. É óbvio (não é?) que os cristãos simplesmente não podem entender nada destas questões O apóstolo expõe isso claramente no capítulo 2 da Primeira Epistola aos Coríntios, onde ele descreve a diferença entre o homem “natural” e o "espiritual” Ele escreve “O que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido”. “Discernir” (VA: julgar) significa entender. O cristão, diz Paulo, entende todas as coisas, mas ele mesmo não é entendido por ninguém Ele é, por definição, um homem que o incrédulo não tem a mínima possibilidade de entender. Portanto, um dos melhores testes que podemos aplicar a nós mesmos c descobrir se as pessoas acham difícil entender-nas porque somos cristãos Se a afirmação de Paulo é verdadeira, o cristão deve ser um enigma para todos os não cristãos. Aquele que não é cristão acha que há algo estranho quanto ao cristão, este não é como os outros, é diferente É como tem que ser, por definição, porque o cristão tem esta vida celestial e pertence a este domínio celestial. Entretanto, ele não somente escapa ao entendimento do não cristão: num sentido é certo dizer que ele próprio não pode entender a si mesmo. Ele tornou-se um problema para si próprio, por causa dessa nova natureza que há nele..“Vivo, não mais eu, mas Cristo vive em num” (Gálatas 2:20). Eu sou eu e não sou eu.

Analisemos isto um pouco mais. O cristão tem duas naturezas. Num sentido ele ainda é um homem natural. O que por nascimento ele herdou de seus antepassados, ele ainda possui. Ele ainda está neste mundo e nesta vida, como todos os demais. Ele tem que viver, tem que ganhar a vida e fazer várias coisas da mesma maneira que os outros. Ele ainda vive a vida secular, a vida “normal”, a vida vivida em termos do intelecto e do entendimento. Ele estuda vários assuntos e, como todos os demais interessa-se pelas condições políticas e sociais; ele tem que comprar e vender como todos os outros. Ele pode estudar artes, pode interessar-se por música. Essa é a sua vida "normal”, sua vida secular, sua mentalidade, coisas que ele compartilha com os não cristãos. Na verdade, podemos ir além e dizer que ele ainda experimenta falhas em vários aspectos, ele tem consciência do pecado Por vezes ele se olha e indaga se é diferente das outras pessoas, parece idêntico a elas. Ele falha, faz coisas que não devia fazer, ainda se sente culpado do pecado. Continua parecido com o homem natural. Se vocês tiverem apenas uma idéia superficial do cristão, poderão muito bem chegar à conclusão de que na verdade não há diferença alguma entre ele e qualquer outra pessoa. Mas isso não está certo, pois essa não é toda a verdade sobre ele. Em acréscimo a tudo isso, há outra natureza, há uma outra coisa que ocorre; e é esta outra coisa que faz do cristão um enigma para os outros e para si mesmo Num sentido ele é um homem natural, porém ao mesmo tempo é um homem espiritual O apóstolo contrasta o homem natural com o homem espiritual, porque o que há de grande acerca do cristão é que ele tem esta natureza espiritual adicional Esta é a característica principal, e é o furor dominante em sua vida O cristão, mesmo na pior condição, sabe que é diferente do incrédulo.

Expondo isso em sua expressão mais baixa, o cristão continua sendo culpado de pecado, mas o cristão não aprecia o pecado como apreciava, e como os outros apreciam. Há algo diferente até quanto ao seu pecado, graças a este princípio espiritual que há nele, a esta natureza espiritual, a esta consciência de uma nova vida, de uma vida que pertence a uma ordem diferente e a uma esfera diferente. É muito difícil expor isto em palavras; há algo evasivo nisso tudo e, todavia, há algo que o cristão sabe. É essencialmente subjetivo, embora resulte da fé na verdade objetiva. Noutras palavras, a menos que você sinta que é cristão, fica uma dúvida se você o é. A menos que lhe tenha acontecendo algo existencialmente, experimentalmente, a menos que lhe tenha acontecido algo na esfera da sua sensibilidade, você não é cristão.

Muitos no presente correm o perigo de considerar a fé de maneira tão puramente objetiva que pode tornar-se antibíblica. Eles dão toda a sua ênfase à subscrição de certos credos e à aceitação de certas formulações da verdade Mas isso pode não passar de assentimento intelectual. Ser cristão significa que Deus, mediante o Espírito, está operando em sua alma, deu-lhe um novo nascimento e colocou dentro de você um principio da vida celestial. E você tem que saber disso. Só você pode sabê-la. Você, necessariamente, tem consciência deste algo mais, desta diferença, deste poder que está agindo em você, deste elemento perturbador, como se pode provar. Você necessariamente tem consciência até de um novo conflito em sua vida. A pessoa não cristã é somente uma pessoa; a pessoa cristã é duas. Para usar a terminologia escriturística, o não cristão não é nada senão o “velho homem”. O cristão, porém, tem também um "novo homem” E entre o novo homem e o velho não há acordo; há uma tensão entre o velho homem e o novo, e há conflito – “A carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne” (Gálatas 5.17). O próprio estágio inferior da verdadeira experiência cristã é aquele estágio no qual você está cônscio justamente desse conflito. Você ainda não sabe o que é ser “cheio da plenitude de Deus”; você sabe pouco, se é que sabe algo, de uma comunhão pessoal e direta com Cristo; mas sabe que há algo em você que o inquieta, sabe que há, por assim dizer, outra pessoa em você, que há um conflito, que há quase que esta personalidade dual, esta dualidade por assim dizer. Estou tentando comunicar o fato da consciência que o cristão tem das duas naturezas. Ele está cônscio das duas naturezas porque ele está “em Cristo”, e Cristo está “nos lugares celestiais”. Ele recebeu esta vida de Cristo, e tudo o que ele tem deriva de Cristo; e isso é tão diferente de tudo mais, que o cristão tem consciência de que tem duas naturezas.

Pois bem, não é só certo dizer que o cristão tem duas naturezas; também tem dois interesses, porque vive em dois mundos. O cristão é cidadão de dois mundos ao mesmo tempo. Pertence a este mundo, tem nele a sua existência; e, contudo, sabe que pertence a outro mundo tão definidamente como a este. Isso é conseqüência inevitável do fato de que ele tem duas naturezas. Daí dizer o apóstolo que o cristão é alguém que foi transferido “da potestade das trevas para o remo do Filho do seu amor” (Colossenses 1:13) – ele foi transferido, transportado, e recebeu uma nova posição. E essa mudança é, num sentido, paralela a que se deu com o próprio Cristo. Deus manifestou o Seu poder quando ressuscitou a Cristo dentre os mortos e O colocou à Sua direita nos lugares celestiais. Com efeito, algo similar aconteceu com todos os cristãos. Não ficamos onde estávamos, fomos transportados, fomos transferidos de um lugar, de um domínio para outro, de um reino para outro, de um mundo para outro. Este é um elemento vital da experiência total do cristão.

Não significa que o cristão sai do mundo. Historicamente muitos cristãos caíram nesse erro, e diziam: visto que sou cristão não pertenço ao Estado. Há cristãos que dizem que não se deve votar nas eleições parlamentares, e que não se deve ter nenhum interesse pelas atividades do mundo. Mas isso não se harmoniza com o ensino das Escrituras, pois o cristão ainda é cidadão deste mundo e pertence à esfera secular. Ele sabe que este mundo é de Deus, e que nele Deus tem um propósito para ele. Ele sabe que é cidadão do país a que pertence, e está ciente de que tem as suas responsabilidades. A verdade é que, desde que é cristão, terá que ser um cidadão melhor do que ninguém no território. No entanto, ele não para aí, ele sabe que também é cidadão de outro reino, de um reino que não se pode ver, um reino que não é deste mundo. Todavia, ele está neste mundo, e o outro reino colide com ele. O cristão sabe que pertence a ambos os remos Assim, isto vem a ser um teste da nossa profissão de fé como cristãos. Sabemos das exigências que a nossa terra natal nos faz, e também sabemos das exigências do reino celestial. Nosso desejo é não transgredir as leis da terra, e maior ainda é o nosso desejo de não ofender o “Rei eterno, imortal, invisível” (1 Timóteo 1:17, VA, ARA) que habita aquele outro reino e que é o Senhor.

O apóstolo prossegue e diz, porém, que não somente pertencemos àquele domínio celestial; no versículo 6 do capítulo 2 de Efésios ele faz uma declaração que soa tão espantosa quanto impossível Diz ele que Deus “nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus ”. Significa nada menos que eu e você, em Cristo, estamos assentados neste momento em lugares celestiais. Estamos lá; ele não está dizendo que vamos estar lá, e sim, que estamos lá. Mas como se pode conciliar isso com o fato de que ainda estamos neste mundo limitado pelo tempo, com toda a sua confusão e contradição? Como podem estas duas coisas ser verdadeiras ao mesmo tempo? A princípio soa paradoxal; e, contudo, é gloriosamente verdadeiro quanto ao cristão. Espiritualmente estou neste momento no céu, “em Cristo”, num sentido como sempre estarei; mas o meu corpo continua vivendo na terra, ainda sou deste mundo limitado pelo tempo, O meu espírito foi redimido em Cristo, como sempre redimido será; porém o meu corpo ainda não foi redimido, e eu, com todos os outros cristãos, estou “esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo” (Romanos 8:23). Ou, como Paulo o expressa, escrevendo aos Filipenses, a nossa situação neste mundo limitado pelo tempo é que “a nossa cidade está nos céus, donde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas” (3:20-21). Em meu espeto já estou lá, mas ainda estou na terra na carne e no corpo.

O aspecto glorioso desta verdade é que, devido eu estar “em Cristo”, o meu corpo vai ser emancipado; a adoção, a redenção dos nossos corpos vai acontecer; virá o dia em que eu estarei nos lugares celestiais, não somente em meu espírito, mas também em meu corpo Isso é absolutamente certo. Seremos transformados, os nossos corpos serão glorificados, e estaremos sem nenhum pecado, culpa ou ruga ou mancha. Em espírito e no corpo estaremos com Ele e O veremos como Ele é; na totalidade do nosso ser e das nossas personalidades estaremos naqueles lugares celestiais.

A dedução que tiramos do ensino do apóstolo foi exposta perfeitamente por Augustus Toplady, quando escreveu:



Mais felizes, mas não mais seguros,

Os espíritos glorificados no céu.



"Os espíritos glorificados no céu”, os cristãos que partiram e estão com Cristo são mais felizes do que nós. Isso porque nós, que ainda estamos nesta vida, estamos “sobrecarregados”, e, por isso, “gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu” (2 Coríntios 5:2). Os cristãos que pararam, já não têm que combater o pecado na carne, e no mundo; disso eles estão completamente livres; isso acabou, no que se refere a eles; porém nós continuamos na carne, no corpo, continuamos lutando, continuamos gemendo. Porque partiram, eles são “mais felizes”; mas não estão mais seguros. Não estão “em Cristo” mais do que nós. Eles estão lá agora porque estavam “em Cristo” quando estavam aqui; nós, mesmo agora, estamos “em Cristo” e estamos assentados espiritualmente junto com eles nos lugares celestiais – com eles e com Cristo, neste exato momento. Como nos lembra o autor da Epístola aos Hebreus, “não chegastes ao monte palpável, aceso em fogo, e à escuridão, e às trevas, e à tempestade, e ao sonido da trombeta, e à voz das palavras, a qual os que a ouviram pediram que se lhes não falasse mais, porque não podiam suportar o que se lhes mandava: se até um animal tocar o monte será apedrejado. E tão terrível era a visão que Moisés disse: estou assombrado, e tremendo. Mas chegaste ao monte de Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e aos muitos milhares de anjos; à universal assembléia e Igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados; e a Jesus, o Mediador duma Nova Aliança, e ao sangue da aspersão, que fala melhor do que o de Abel” (Hebreus 12:18-24). Estamos lá agora em nossos espíritos; estaremos finalmente lá em nossos corpos também.

Isso nos leva à percepção de que o cristão não somente tem duas naturezas, e duas existências, mas também, necessariamente, tem duas perspectivas. O cristão vê a vida e o mundo, e num sentido os vê como todo o mundo os vê; todavia, ao mesmo tempo ele os vê diferentemente. Como cristãos não olhamos para as coisas como o mundo olha, mas o fazemos como pessoas pertencentes aos domínios celestiais; vemos tudo diferentemente, vemos tudo do ponto de vista espiritual. Os homens e as mulheres não cristãos consideram o estado em que o mundo se encontra, as guerras e os tumultos, a causa de todas essas coisas e a possibilidade de outra guerra mundial. Consideram as sugestões quanto ao que se pode fazer, e se é certo ou errado ter exércitos e engajá-los na luta. Estas coisas requerem atenção. O cristão como cidadão deste domínio visível, tem que chegar a decisões, e tem que ser capaz de dar os motivos das suas decisões.

Com relação à Igreja Cristã, num sentido ela não tem nada a ver com os problemas do mundo, e não deve gastar muito tempo com eles. A tarefa primordial da Igreja é apresentar a perspectiva, o ponto de vista espiritual. Ela vê a causa de todos os problemas de maneira inteiramente diversa. A visão mundana enxerga a causa da guerra como uma questão de “equilíbrio do poder” entre as nações e em termos de como lidar com isso de maneira a mais eficiente. Isso está certo, dentro dos seus limites; porém não é esse o problema fundamental que, como Paulo nos ensina no último capítulo desta Epístola, consiste em que “não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (6:12). O cristão sabe que o mundo está como está devido ao pecado, devido ao diabo; ele vê todas as coisas com uma nova perspectiva e com um novo entendimento. Ele sabe que estas coisas são apenas a manifestação do poder satânico; e que, em última análise, o conflito deste mundo é um conflito espiritual, não um conflito material. Os problemas do mundo não são meramente resultantes da colisão de concepções materiais apenas; são produzidos pelos poderes do inferno e de satanás lutando contra o poder de Deus. Em contraste com a visão que o mundo tem, a visão do cristão é muito mais profunda. O cristão não vê as coisas meramente ao nível horizontal; ele as vê perpendicularmente também. Para ele há sempre este elemento básico – “sub specie aeternitatis”. *

Ele sabe, ademais, que a única maneira de lidar com estes problemas só pode ser espiritual. O cristão sabe que Deus tem duas maneiras de tratar destes problemas que resultaram das atividades do diabo, da queda do homem e do pecado. A primeira é que Deus restringe o mal, e o faz de muitas maneiras. Primeiro o fez, em parte, dividindo o mundo em países e estabelecendo limites para cada um deles. Isso Ele fez ordenando que houvesse reis e chefes de Estado, magistrados e autoridades. Nunca nos esqueçamos de que as potestades que existem foram ordenadas por Deus (Romanos 13 1). Foi Deus que ordenou os governos e os sistemas de governo. É por isso que o cristão é exortado a honrar o rei, os senhores e todos os que estão revestidos de autoridade. Dessa maneira Deus mantém o mal dentro de certos limites, restringindo o mal. Ele faz isso por meio dos governos, pelo uso dos estadistas, das conferências internacionais e pelo uso de diversos outros meros No entanto eles são somente negativos, simplesmente restringem o mal. A força policial pode impedir que um homem faça certas coisas más, porém nenhuma força policial pode transformar alguém num homem bom. O mesmo aplica-se também aos governos. Também se aplica esta verdade à cultura, à educação e a tudo quanto esteja destinado a melhorar os costumes e a tornar a vida ordeira, harmoniosa e agradável. Todas essas agências fazem parte do mecanismo de Deus para refrear o pecado e as suas manifestações e conseqüências. Entretanto, elas são negativas. Um homem altamente civilizado nunca fará certas coisas; mas isso não significa necessariamente que ele é um bom homem. É certo que a cultura não faz dele um homem espiritual.

Mas existe este outro aspecto positivo: Deus trata dos problemas do mundo de maneira positiva e curativa, a saber, em Cristo e por meio de Cristo e Sua grande obra de salvação. Ele tira um homem deste “presente mundo mau” em espírito, e o coloca dentro do reino de Cristo Coloca dentro dele um novo principio que não somente lhe tira a disposição para pecar, mas também lhe dá amor à santidade O homem se torna positivamente bom e passa a ter “fome e sede de justiça" Ele se torna semelhante ao Senhor Jesus Cristo Há um novo remo dentro “dos remos deste mundo"; é o reino de Deus Essa é a única cura. O remo de Deus finalmente vai ser tão grande que o pecado será destruído e banido, e não mais existirá. O cristão, e somente ele, vê o plano e o propósito de Deus. Os estadistas do mundo, os não cristãos, na melhor das hipóteses nada sabem a respeito, eles só vêem a situação em termos do visível e daquilo que está diretamente diante deles.

Estas duas maneiras de ver também são inteiramente diversas com respeito ao futuro. O incrédulo liga a sua fé às conferências. E imagina que se tão-somente os homens pudessem ter uma Conferência de Mesa Redonda e acordassem nunca mais fazer uso da bomba atômica ou da bomba de hidrogênio, o mundo se tornaria mais ou menos perfeito. Mas, ao que parece, isso nunca se efetuará. Ele não pode ir além da sua visão horizontal, ele nada sabe deste elemento espiritual superior. Ele a credita na perfectibilidade do homem e na evolução de toda a raça humana. Ele acredita que o homem ficará cada vez melhor, à medida que se torne mais instruído, e que finalmente abolirá a guerra.

Ora, infelizmente isso nunca acontecerá por causa deste elemento espiritual em conflito. Conquanto o homem tenha pecado em sua natureza, ele não somente será culpado do pecado individualmente, mas também numa escala nacional e mundial. Porque a mente de uma multidão sena diferente da mente de um indivíduo”. Graças a Deus, há outra mensagem; e a maior tragédia do mundo é que a Igreja, em vez de pregar a sua verdadeira mensagem, está pregando uma mensagem terrena, humana, carnal. Não teria a Igreja algo melhor para pregar do que apelar para os estadistas para que resolvam os problemas? Isso é realmente uma negação da fé cristã, e revela uma abismal ignorância dos "lugares celestiais”. Como cristãos, temos outra maneira de ver, temos algo inteiramente diverso. As preleções sobre a temperança nunca tornarão sóbrios os homens, nem as estatísticas das perdas de guerra porão fim à guerra. Sabemos que o problema é espiritual, e que a solução tem que ser igualmente espiritual Como é de satanás que basicamente vêm os maus desejos, as paixões e as cobiças, assim é de Cristo, e dEle somente, mediante o Espírito, que vem o poder para sobrepujá-los E Ele virá não somente para o indivíduo, graças a Deus, Ele virá para o mundo todo. O cristão sabe que Cristo, que agora está nos lugares celestiais, voltará a este mundo em forma visível, cavalgando as nuvens do céu e rodeado pelos santos anjos e pelos santos que já estão com Ele; e os que estiverem na terra quando Ele vier serão transformados e serão elevados nos ares para encontrar--se com Ele, e estarão todos "sempre com o Senhor". Ele derrotará os Seus inimigos, e banirá o pecado e o mal. Seu reino se estenderá "de mar a mar” (Salmos 72:8; Zacarias 9:10) e Ele será aclamado como o Senhor por todas as coisas “que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra” (Filipenses 2:10).

Isso é otimismo cristão, e significa que sabemos que somente Cristo pode vencer, e vencerá. Você está “nos lugares celestiais”, você está ciente das duas naturezas que há em você, está ciente de que pertence a duas esferas? Tem você esta nova visão espiritual da guerra e da paz e dos problemas do mundo? Você vê tudo pela perspectiva do céu, de Deus e do Senhor Jesus Cristo, assentado com Ele nos lugares celestiais? Bendito seja o nome de Deus!
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03 novembro 2010

Cada dia mais perto do lar! – M. Lloyd-Jones


Digo a mim mesmo cada dia que passa que este é somente outro marco quilométrico, que nunca retornará, que nunca voltará a aparecer? Estou armando minha tenda móvel «cada dia mais perto do lar»? . . . Sou um filho do Pai celeste posto aqui para o Seu propósito, e não para o meu. Não vim por escolha própria; eu não me trouxe a mim mesmo para cá; nisso tudo há um propósito. Deus me deu o grande privilégio de viver neste mundo, e se me dotou de quaisquer dons, tenho que dar-me conta de que, embora, em certo sentido, todas essas coisas sejam minhas, em última instância pertencem a Deus, como o demonstra Paulo no final do capítulo terceiro de 1 Coríntios. Portanto, considerando-me como alguém que tem este grande privilégio de ser zelador dos pertences de Deus, um mordomo e despenseiro, não me apego a essas coisas. Elas não se tornam o centro da minha vida e existência, não vivo por elas nem vivo sempre a pensar nelas; não absorvem a minha vida. Ao contrário, eu as conservo sem apego; mantenho-me em um estado de bendito desligamento delas. Não sou governado por elas; antes, eu as governo; e, agindo assim, estou adquirindo, paulatinamente, e acumulando com segurança, «tesouros no céu» para mim.

... O Senhor Jesus Cristo nos ordenou que acumulemos para nós tesouros no céu, e os cristãos fiéis sempre o fi¬zeram. Acreditavam na realidade da glória que os aguardava. Tinham esperança de chegar lá, e seu único desejo era desfrutá-la em toda a sua perfeição e em toda a sua plenitude. Se queremos «seguir as suas pegadas» e fruir a mesma glória, é bom ouvir a exortação do Senhor: «Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra. . . mas ajuntai para vós outros tesouros no céu».

Síudies in the Sermon on the Mount, ii, p. 85.
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